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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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May03

Trip | Serras da Moeda e do Cipó 17.04.27

 

 

A Serra da Moeda é uma cadeia de montanhas localizada no Quadrilátero Ferrífero, na porção Sul da Serra do Espinhaço. Foi em razão da fartura de metais preciosos que se deu a ocupação portuguesa nessas terras. Possuindo importantes Unidades de Conservação, como o MONA da Serra da Calçada e importantes trechos naturais, sobreviventes das atividades mineradoras, a Serra da Moeda é uma importante região para a conservação da flora e fauna. A Serra do Cipó também está localizada no Espinhaço e sua ocupação ocorreu quando desbravada por sertanistas paulistas que estabeleceram as primeiras fazendas. Passada a euforia inicial da busca do ouro a população da Serra do Cipó e do entorno dedicou-se à agricultura de subsistência, à criação de gado, à produção de cachaça dentre outros produtos. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600m e a vegetação acima de 1000m é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente as Serras da Moeda e do Cipó são destinos procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza. Nos dias 27, 28, 29 e 30 de abril recebemos as fotógrafas Kacau Oliveira, Juliana e Adriana Casali, acompanhada de seu marido José para um roteiro pelas Serras da Moeda e do Cipó.

 

Dia 01: O grupo estava vindo de carro do Rio de Janeiro e iria chegar só a tarde, aproveitei a manhã livre e visitei a Trilha da Mãe D’Água, para encontrar pontos das espécies mais relevantes. Logo no início da trilha encontrei um macho de picapauzinho-barrado (Picumnus cirratus) que deu ótimas chances de foto. Avistei também uma cena interessante, de um bando de joão-de-pau (Phacellodomus rufifrons) construindo um ninho, após perder o antigo, que caiu após a quebra do galho em que estava preso. Caminhando um pouco mais percebi que as flores de arnica-do-campo (Lychnophora ericoides) já estão secando e a população de beija-flores reduziu bastante em comparação com as últimas semanas, quando facilmente era possível avistar cerca de 8/9 espécies em uma manhã. Fui então em busca de algum território de beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), para facilitar a procura da tarde. Depois de rodar bastante, encontrei e fiz boas imagens de um macho jovem, com a plumagem ainda bastante discreta. Encontrei também o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris), o beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) e nada de um adulto de Augastes. Estava já retornando quando escutei a vocalização de outro gravata-verde, que, finalmente, era um macho adulto. A luz já estava bem dura, não consegui boas fotos, mas fiquei um tempo o observando, defendendo seu território contra um chifre-de-ouro (Heliactin bilophus), que vez ou outra passava pela área. Enquanto fiquei ali, um bando de cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata) apareceu, espécie que há algum tempo andava sumida no local, juntamente com alguns campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens), que também ficam bastante quietos nessa época do ano. Ambos estavam na lista de desejos do grupo que estava para chegar, restava contar com a sorte e os reencontrar a tarde. Voltei para a pousada para almoçar e me preparar para receber os clientes.

 

Era quase 15h quando o grupo chegou e rapidamente fizemos check-in e seguimos para a trilha. Já fui direto para o território do beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus) que lá estava, porém, diferentemente do normal, o bicho não parava quieto e não permitiu boas fotos. A iluminação ainda estava bem dura, o que também não ajudou muito. Fizemos alguns registros e seguimos em frente. Alguns metros caminhando e, para nossa sorte, encontrei o bando de cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata) que havia avistado anteriormente. Dessa vez a luz já estava bem legal e o bicho deu um mole danado. Enquanto o grupo fotografa as cigarras, me surpreendi ao avistar uma fêmea de mineirinho (Charitospiza eucosma), que normalmente não aparece nessa época do ano. O resultado não poderia ser outro, alegria geral! Ainda sem desistir de melhores condições para fotografia, fui em busca de outro macho de beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus) e acabei encontrando. Dessa vez o grupo conseguiu bons registros. O campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens), um dos grandes desejos da Adriana, apareceu apenas no final do dia, sem nenhuma condição de fotografia. Retornamos para a pousada e o grupo finalmente poderia descansar após tantas horas de viagem e alguns lifers, abrindo muito bem o primeiro roteiro que elas faziam no Cerrado.

 

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DIA 02 - O roteiro inicial previa uma visita ao Distrito de Lapinha da Serra, porém a chuva nos obrigou a alterar os planos. Apenas lá pelas 08h00 da manhã a chuva reduziu e permitiu uma visita ao Parque Nacional da Serra do Cipó. Logo de cara um casal de sanhaço-de-fogo (Piranga flava) apareceu e aumentou nosso otimismo. Nos campos úmidos do PARNA, outras espécies foram movimentando a paisagem, como o lindo batuqueiro (Saltatricula atricollis), a diminuta patativa (Sporophila plumbea), que forrageava em bando buscando sementes de capim e a alegórica tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa), exibindo seu display no alto de poleiros limpos. Chegamos na mata ciliar do Rio Cipó e logo na entrada um bando misto nos ocupou por um bom tempo. Estavam lá tico-tico-rei-cinza (Coryphospingus pileatus) e a pipira-da-taoca (Eucometis penicillata), sanhaço-cinzento (Tangara sayaca), saíra-amarela (Tangara cayana) e saíra-ferrugem (Hemithraupis ruficapilla). Também avistamos cambacica (Coereba flaveola) e figuinha-de-rabo-castanho (Conirostrum speciosum) entre outros vários. Por duas vezes escutamos o cisqueiro-do-rio (Clibanornis rectirostris), que não deu chance para fotos. Encerramos a trilha e seguimos para o almoço.

 

Sem descansar muito, partimos diretamente em busca de mais lifers, entre eles a choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus) e o rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus). A Juliana havia colocado a choca no topo da sua lista de desejos e, assim sendo, foi a 1ª espécie que tentei atrair. Nem sinal do bicho, o que me preocupou bastante. Nesse meio tempo tentei também o rapazinho-dos-velhos, esse rapidamente respondeu e deu ótimas chances. Bicho bonito, se aproximou bastante e ficou por vários minutos nos mesmos poleiros. A choca, por outro lado, nem sinal. Passaram-se cerca de 01h30 e nada. Quando eu já estava quase desistindo, o bicho responde longe, dentro do cerradão. Tentei de todas as formas fazer o bicho se aproximar e nada até, que após muito esperar, o bicho resolveu aparecer na borda da vegetação, permitindo alguns ótimos registros. Aproveitamos a noite e visitamos o centro turístico da Serra do Cipó, para visitar algumas lojas de queijos e artesanato. Encerramos o dia com muita risada, comemorações e algumas cervejas artesanais mineiras.

 

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Dia 03: Agora sim, com o tempo melhor e sem chuva, partimos bem cedo para Lapinha da Serra. Antes mesmo de chegarmos ao primeiro ponto planejado, um bando de gralhas-do-campo (Cyanocorax cristatellus) e de pica-pau-branco (Melanerpes candidus) nos obrigou a fazer uma parada antecipada. Voltamos para o carro e continuamos até o próximo ponto e, logo de cara uma grande surpresa: avistamos uma saíra-viúva (Pipraeidea melanonota), bicho bastante incomum por ali. O tempo estava frio e os bichos pouco ativos, quando o Sol apareceu e esquentou um pouco, várias espécies começaram a aparecer. Entre elas os desejados pica-pau-chorão (Veniliornis mixtus), capacetinho-do-oco-do-pau (Microspingus cinereus), suiriri-cinzento (Suiriri suiriri),  novamente um casal de sanhaço-de-fogo (Piranga flava) e, para atender também ao maior desejo da Kacau, um par de bandoleta (Cypsnagra hirundinacea). Voltamos para o carro e seguimos viagem até o próximo ponto, em busca dos endemismos do Espinhaço. O primeiro a ser encontrado foi o recém descrito pedreiro-do-espinhaço (Cinlodes espinhacensis). No mesmo local avistamos chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro), caminheiro-zumbidor (Anthus lustecens), casaca-de-couro-da-lama (Furnarius figulus) e um par de narceja (Gallinago paraguaiae). Pouco a frente encontramos novamente com capacetinho-do-oco-do-pau (Microspingus cinereus). Quando iniciamos nossa busca pelo lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae) o vento apertou muito, fazendo a densa neblina e o frio piorarem muito, o que nos fez desistir e voltar para o povoado de Lapinha, para almoçar. No caminho, ainda nos restava a sorte de encontrar com 3 indivíduos de papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris), que facilitaram muito nosso trabalho, dando ótimas chances de fotos. Como se não bastasse, ainda avistamos um gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus). Aproveitamos o final da tarde para experimentar mais algumas cervejas artesanais, comer bons petiscos e prosear muito sobre passarinhos e passarinheiros.

 

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Dia 04: Encerramos nosso roteiro visitando a Serra da Moeda e, logo de cara, encontramos uma bela saíra-douradinha (Tangara cyanoventris) que se aproximou bastante do grupo. Poucos metros a frente conseguimos também ótimos registros do sebinho-de-olho-de-ouro (Hemitriccus margaritaceiventer) e da guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata). Não precisamos aguardar muito e mais dois super lifers apareceram e deram show: rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda) e tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata). Apesar de sabermos que seria complicado ver, ainda tentamos a maxalalagá (Micropygia schomburgkii) que vocalizou muito, dentro do capim rs. Sem problemas, fica para outra oportunidade. Encerramos a trilha da manhã e paramos para almoçar. A tarde seguimos para o Parque Municipal Roberto Burle Marx, Belo Horizonte/MG, em busca do cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla), que não decepcionou. Dois indivíduos pousaram nos melhores poleiros, na altura da lente, e com aquela luz impecável. No mesmo local, chegaram também chorozinho-de-chapéu-preto (Herpsilochmus atricapillus), beija-flor-tesoura-verde (Thalurania furcata), beija-flor-de-peito-azul (Amazilia lactea), picapauzinho-barrado (Picumnus cirratus) entre outros… Já estávamos encerrando o roteiro quando uma última surpresa resolveu aparecer. Eu havia tentando atrair um choró-boi (Taraba major) poucos minutos antes e nem sinal. Quando estávamos saindo da trilha escutei bem de longe a resposta. Não pensei duas vezes e retornei ao local, quando cheguei me deparei com um macho no alto de um poleiro completamente limpo, na altura do olho. Cena inexplicável, o bicho dando um espetáculo! Não bastasse ele entrou na vegetação e se aproximou, ficando bem próximo de nós, permitindo excelentes fotografias. Encerrando um roteiro absurdo, onde praticamente tudo deu certo.

 

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Sem sombra de dúvidas esse foi um dos melhores grupos que tive o prazer de conduzir e um dos melhores roteiros que executei. Foram cerca de de 140 espécies de aves registradas (clique aqui e confira a lista completa), sendo que mais de 30 dessas foram lifers registrados com maravilhosas imagens. Agradeço imensamente pela confiança depositada em nosso trabalho. Até a próxima!

 

Grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

 


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MONTE SEU GRUPO. AGENDE SEU ROTEIRO.

FOLDER_Serras de Minas Gerais 001

  • Posted by Eduardo Franco
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