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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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March22

Trip | Serra do Cipó 17.03.17

 

 

A Serra do Cipó está localizada na Cadeia do Espinhaço e sua ocupação ocorreu quando desbravada por sertanistas paulistas que estabeleceram as primeiras fazendas. Passada a euforia inicial da busca do ouro a população da Serra do Cipó e do entorno dedicou-se à agricultura de subsistência, à criação de gado, à produção de cachaça dentre outros produtos. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600m e a vegetação acima de 1000m é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente a Serras do Cipó é destino procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza. Nos dias 17, 18 e 19 de março recebemos os amigos Francisco Hamada, Leonardo Casadei e Alex Satsukawa, para um roteiro pela Serra do Cipó.

 

Dia 01: O roteiro já estava difícil antes mesmo de começar. O carro que seria utilizado no roteiro estava na revisão e, às 18h da véspera, apagou. Simplesmente o motor não funcionava. Ao que tudo indicava, algum problema na central de comando do veículo. Correria total e acabei desistindo e tentando outra opção e, por sorte, meu irmão acabou me emprestando o carro dele para a viagem. Passado o susto, no dia seguinte nos encontramos no Aeroporto de Confins e seguimos diretamente para a Serra do Cipó. No caminho, pouco antes de chegarmos, observamos um veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) atravessando a MG-010, cena rara no Cipó. Chegamos por volta das 11h00, demos entrada na Pousada e aproveitamos alguns minutos para passarinhar. Focamos em algumas poucas espécies e logo de cara topamos com vários chifre-de-ouro (Heliactin bilophus) e beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), que dividiam espaço com outros beija-flores que se alimentavam da arnica-do-campo (Lychnophora ericoides). No mesmo local conseguimos encontrar alguns indivíduos de bacurauzinho (Nannichordeiles pusillus), que renderam boas imagens. Para fecharmos com chave-de-ouro, um casal do incomum pica-pau-chorão (Veniliornis mixtus) alimentava-se por perto e permitiu boa aproximação. O Sol já era bem forte quando resolvemos voltar para a Pousada para almoçar e fazer uma rápida pausa. Por volta das 15h00, decidimos voltar ao mesmo local para tentar melhores registros do chifre-de-ouro. Valeu a pena. Vários indivíduos, machos e fêmeas, ficaram todo o tempo forrageando à nossa volta e, vez ou outra, pousavam por alguns rápidos segundos, antes que outro beija-flor viesse e os espantassem. Encerramos o dia curtindo o tradicional e belíssimo pôr-do-sol do alto do Morro da Pedreira, uma das mais famosas paisagens da Serra do Cipó. Durante a noite, antes de dormir, consultei a previsão do tempo e o que vi não foi nada animador. Previsão de chuvas fortes em praticamente todo o Brasil, inclusive em Minas Gerais. A ansiedade fez o sono demorar a vir…

 

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Dia 02.1: O despertador estava programado para 04h30, mas 30 minutos antes eu já estava de olhos abertos. Nenhum som de chuva, ufa. Sai do quarto para conferir o céu, que estava estrelado, ufa². Voltei para o quarto para me preparar e às 05h15 todos nós já estávamos com os equipamentos prontos para seguir para o Distrito de Lapinha da Serra. Essa é a trilha mais importante do Roteiro do Cipó, pois é nele que esperamos encontrar os bichos endêmicos e característicos da região. A primeira baixa foi a bichoita (Schoeniophylax phryganophilus), que continua sumida e muda. Tive impressão de escutar a voz do bicho por pelo menos 3 vezes, mas ela não respondia ao playback. Paciência, seguimos viagem. Nesse meio tempo conseguimos registrar outros bichos interessantes, como o suiriri-cinzento (Suiriri suiriri), um bando de joão-bobo (Nystalus chacuru), um casal de bandoleta (Cypsnagra hirundinacea) e outro de maria-preta-de-garganta-vermelha (Knipolegus nigerrimus). A comum neblina que estaciona no alto dos paredões da Lapinha já havia desaparecido quando iniciamos a trilha, Nenhuma nuvem para aliviar o forte Sol que contrariava a previsão. Os bichos calados e, quando apareciam, todos com os bicos abertos de calor. Apesar das condições adversas, continuamos em busca dos nossos objetivos. O “augustinho“, beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), nunca falha. Lá estava, nos aguardando, defendendo fortemente seu território. A luz já era péssima e as fotos não ficaram as melhores. Entretanto, impossível não se surpreender e se encantar com a confiança que esse bicho desenvolveu com os visitantes. O Sr. Francisco não resistiu, e também desfrutou desse momento mágico, levando néctar até o bico do bicho. O rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda) vocalizou apenas uma vez, muito longe da trilha. Restava ir atrás dos endêmicos, lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae) pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis). Resposta ao playback, nenhuma. O pedreiro vocalizou espontaneamente apenas uma vez, sem voltar a dar sinal. O lenheiro vocalizou algumas vezes, no alto dos paredões. Seguimos subindo alguns metros, tentando localizar o bicho, sem sucesso.  Muito calor e pouca água, muita fome e pouca comida. Por mais que eu odeie a palavra “desistir”, não restava muito a fazer. Decidimos então voltar, sem nenhum dos dois avistados. Seria a única vez que eu sairia do Cipó sem avistar ao menos 1 dos dois. Só quem é guia sabe o quanto essa frustração é cruel. O caminho de volta parecia interminável, quando uma faísca de otimismo apareceu, o rabo-mole-da-serra voltou a vocalizar, dessa vez em local de fácil acesso. Lá estava uma família, com um filhotão conhecendo seus primeiro voos entre as rochas quartzíticas do Espinhaço. Registro longe do ideal, mas animador para as próximas horas do dia.

 

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Dia 02.2: O relógio já marcava 14h00 quando fomos almoçar, exauridos da primeira parte da manhã. Mantendo minha característica teimosia, convenci o grupo a seguirmos continuando, mesmo o calor seguindo intenso e as chances serem pequenas. Havia uma última possibilidade de registrarmos ao menos o pedreiro. No meio do caminho, avistamos cochicho (Annumbis anumbius) e o suiriri-cinzento novamente. Poucos metros antes do ponto, pedi a todos para cruzarem os dedos rs. Não sou muito supersticioso, mas naquele dia tava valendo tudo. Quando cheguei ao local avistei um bicho no alto de um poleiro e já me empolguei, apertei o passo e, quando coloquei o binóculos no olho, identifiquei um casaca-de-couro-da-lama (Furnarius figulus). Bicho lindo, sim, mas ainda não era o aguardado pedreiro-do-espinhaço. Iniciei o playback a fim de encontrar o bicho, que não respondia. Alguns minutos (eternos minutos) depois, penso ter escutado um dos chamados da espécie. Me animo novamente, salto a cerca, reproduzo o playback e aquela cena de um casal de pedreiro-do-espinhaço voando em direção aos mourões era uma das coisas mais aliviadoras que havia sentido esse ano. UFA³!!! Cara, que alegria. Eu ainda curtindo o momento e a turma já clicava o bicho, que exibia topete e displays, premiando nossa insistência. Rapaz, que dia. Que dia. Estávamos tão satisfeitos, que até uma comum guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata), nos prendeu por longos minutos fotografando. Voltamos para a pousada e, no caminho, a prometida chuva parecia estar chegando, com muitos raios cortando o horizonte. Todos extremamente cansados, não restava nada a fazer se não uma boa noite de sono.

 

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Dia 03: Apenas achei que teria uma boa noite de sono. Por volta das 03h00 da madrugada, acordei com uma tempestade caindo lá fora. Muita água e raios. Tentei com muito esforço voltar a dormir, mas consegui tirar apenas um cochilo. Lá pelas 05h00 levantei e fui conferir como estava o tempo, e a chuva seguia caindo, insistentemente. O Alex e o Leonardo levantaram e ficamos os três, tomando café e torcendo para o tempo melhorar. Sr. Francisco aproveitou e ainda rendeu descansando, se recuperando do dia anterior. Cogitamos voltar para Belo Horizonte, mas a chuva também cai por lá. Voltamos para o quarto, aguardamos até umas 08h00, quando decidi arriscar. Ainda caia uma chuvinha mas entramos no carro e seguimos para o Parque Nacional da Serra do Cipó. Seguimos diretamente para os campos úmidos em busca dos bandos de papa-capins, que lá estavam. Conseguimos registrar o baiano (Sporophila nigricollis), patativa (Sporophila plumbea), caboclinho (Sporophila bouvreuil) e, para nossa surpresa, um indivíduo de chorão (Sporophila leucoptera). Um registro interessante foi um gaviao-bombachinha-grande (Accipiter bicolor), de muito longe. Além desses, conseguimos também bons registros da tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa), canário-do-campo (Emberizoides herbicola) e chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro). Queríamos entrar em uma trilha dentro de mata-ciliar, mas ela estava totalmente alagada. Cheguei a atravessar dois locais pela água, mas mais a frente realmente estava impossível. Recuamos, saímos do parque e fomos almoçar. Ainda restavam alguns minutos e passamos em um último local para tentar avistar outras espécies. Não foi fácil mas conseguimos registrar a choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus) e o rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus)

 

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Sem a menor dúvida esse foi o roteiro mais complicado do ano. Extremamente trabalhoso e nem todas as espécies desejadas apareceram, mas ainda relevante em relação aos resultados. Foram mais de 100 espécies registradas (clique aqui e confira a lista completa). Agradecemos a confiança dos nossos clientes e ao apoio dos nossos parceiros.

 

Grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

  • Posted by Eduardo Franco
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