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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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July11

Trip | Serra do Cipó 16.07.08

 

 

Considerada um dos principais destinos de ecoturismo no Brasil, a Serra do Cipó está localizada na porção Sul da Cadeia do Espinhaço, região central do Estado de Minas Gerais. A variação altitudinal vai de 800 até 1687m. O clima é tropical montano com temperaturas variando entre 17 e 18,5 ºC e clara divisão entre estações seca e chuvosa e precipitação anual entre 1400 e 1850mm. A vegetação é bastante característica sendo que na face oeste, predominam o Cerrado (800 e 1000m) e os Campos Rupestres (1000m) e na face leste predomina predominam a Mata Atlântica (800 e 1000m) e os Campos Rupestres (1000m). O Campo Rupestre é a vegetação predominante  entre 1000 e 1300m em ambas as faces. Acima de 1300m, ocorrem campos e brejos com alguns afloramentos rochosos. No pé da Serra ocorrem lagos, áreas alagadas e pequenas comunidades, propriedades rurais e centros turísticos. Nos dias 08, 09 e 10 de julho recebemos os fotógrafos Ivan Cesar, Hilton Filho, e Guimas  (Rio de Janeiro/RJ) para um roteiro em busca das aves e paisagens da Serra do Cipó.

 

Começamos nosso passeio visitando a região conhecida como Mãe D’Água. Nos primeiros passos já foi possível perceber como o Cerrado e os Campos Rupestres estão enfrentando uma forte seca, comum durante o meio do ano. A soma de poucas chuvas, intenso calor e ignorância humana ocasionam incêndios frequentes que, infelizmente, já começaram a ser identificados na paisagem. Bem, vida que segue, passarinhada também. Poucos metros foram necessários para que a primeira importante espécie fosse registrada. Dois capacetinho-do-oco-do-pau (Microspingus cinereus) deram trabalho, mas acabaram posando para algumas poucas fotos. Logo após alguns trinca-ferros (Saltator similis) também fizeram pose. Em seguida, com as primeiras luzes do Sol, espécies comuns do Cerrado foram aparecendo. Bandos de tico-ticos (Zonotrichia capensis), guaracava-modesta (Sublegatus modestus), maria-preta-de-penacho (Knipolegus lophotes), batuqueiro (Saltatriculla atricollis), campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens) entre outros. Alguns beija-flores como o beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) e o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) apareceram, bem e o chifre-de-ouro (Heliactin bilophus), que marcou presença com poucos segundos de visualização de uma fêmea. Duas espécies desejadas pelo grupo, o joão-bobo (Nystalus chacuru) e o canário-rasteiro (Sicalis citrina) apareceram tímidas, mas com boas chances para foto. Encerramos a trilha e seguimos de carro até o ponto onde é possível fotografar a choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus), que não só apareceu como deu um mole danado. Após o almoço subimos até a região do Alto do Palácio, após uma rápida passagem pela estátua do Juquinha, que nos rendeu boas fotografias do papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris). A seca e a pouca disponibilidade de alimento parecem ter afetado e vimos pouca coisa mais.

16-07-08_00 Antes de relatar nosso segundo dia, um breve parêntese sobre o trabalho de guia de observação e fotografia de aves. Com uma agenda cheia e roteiros em praticamente todos os finais de semana de 2016, o cansaço físico é uma questão que precisamos tratar com atenção. Uma lesão pode interromper o calendário e passeios serem cancelados. Além disso, precisamos também lidar com a pressão psicológica de conseguir corresponder aos desejos dos clientes em relação as espécies que gostariam de ver e fotografar. Apesar de, tanto guias quanto clientes, entenderem que trabalhar com natureza é trabalhar com o imprevisível, é inevitável externar frustrações quando algumas expectativas não são atendidas. Bem, esse breve parágrafo foi necessário pois o segundo dia do nosso roteiro foi um dos mais desafiadores que já tive desde que me tornei um guia.

 

Acordamos bem cedo e seguimos para o distrito de Lapinha da Serra para uma trilha de 07 km em busca dos endemismos da Serra do Cipó e, por isso, a mais importante no roteiro. Apesar de dias complicados e outros desejos dos clientes, conseguir os bichos que só existem na região é sempre o maior objetivo e costumo dedicar bastante tempo para tentar mostra-los. Ainda no caminho em direção a trilha paramos em um ponto onde é possível registrar o pula-pula-de-sobrancelha (Myiothlypis leucophrys). Após alguns minutos tentando atrair o bicho, escutei uma resposta distante. Segui tentando até que, de repente, um indivíduo aparece saltando no solo, silencioso, sem dar muitas chances. Comportamento interessante onde, enquanto um fica longe vocalizando, o outro desloca-se para investigar o possível invasor. Como não encontrou nada, voltou e não apareceu mais.

 

Chegando na trilha o vento frio e forte aumentou minhas preocupações. Além do tempo extremamente seco, o vento é uma variável que dificulta muito atrair aves. Seguimos em passos rápidos e completamos os dois primeiros quilômetros escutando pouca coisa além de tico-ticos (Zonotrichia capensis). Pouco mais a frente chegamos em um dos pontos possíveis para registrar o lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae), um dos super endemismos do Cipó. O vento seguia forte quando comecei a reproduzir a voz do bicho. Esperamos 10, 20, 30 minutos e nada. Quando um dos fotógrafos sugeriu seguirmos eis que, na última pedra do horizonte, um dos lenheiros responde. Comemorei com um punho fechado para o alto e, com os ânimos renovados, aumentei os esforços para atraí-los. Alguns minutos depois outros dois indivíduos também apareceram e começaram a se aproximar. Após algum tempo insistindo, finalmente um deles resolveu subir na pedra que eu pretendia e lá ficou alguns preciosos minutos, dando possibilidades para que todo o grupo fotografasse. Ufa! Primeiro objetivo cumprido. Alguns cumprimentos e partimos, então, para o beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus). Esse, como de costume, não decepcionou. Estava lá em seu território, utilizando os mesmos poleiros e dando todas as possibilidades possíveis para boas fotografias. Segundo objetivo cumprido. Faltava o pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis) e eu mal sabia o que me aguardava. Já marcava 10h30 quando comecei a tentar buscar o último endemismo desejado. Após uma hora de tentativas, caminhamos para outro ponto. Mais 30 minutos e bem longe escuto uma resposta. Ânimos renovados e vai eu atrás do bicho. Reproduzo, ele responde. Reproduzo, ele responde. O processo demorou mais alguns minutos até eu aceitar o destino e perceber que o pedreiro não iria aparecer. Cabisbaixos, retornamos para a trilha. Só quem é guia entende o quanto isso é chato. Aqueles quilômetros na volta pareciam intermináveis. Chegamos até o carro e lá fiz a proposta de almoçarmos por lá mesmo e a tarde fazer uma última tentativa em outro ponto que o bicho ocorria, mas que há muito tempo eu não o encontrava. O grupo acatou a proposta e fomos então para o restaurante.

 

Após um rápido descanso começamos a caminhar lentamente pelas margens das lagoas da Lapinha da Serra. Tempo em tempo eu parava e tentava atrair o bicho. Nada, nenhum sinal do danado. Após andar mais um pouco encontrei um ambiente que poderíamos ter sucesso. Chegamos na beirada de um córrego que desaguava na lagoa. Sabia que aquela seria a última chance, já que o relógio se aproximava das 16h00 e a boa luz já estava para terminar. Uma, duas, três tentativas e tive a impressão de ouvir uma resposta. Incrédulo e achando que estava ouvindo coisa, escuto o Ivan dizer que também ouviu algo. O Hilton clicou a câmera duas vezes e disse ver um bicho grande e marrom no chão. Toquei mais duas vezes e PAH! Escutei o famigerado cantando poucos metros de nós. Um olhou para o outro e foi o tempo de ignorarmos o cansaço, saltarmos o córrego, passarmos por uma cerca de arame farpado e, quando olhamos na beirada do curso d’água, lá estava o bicho. O silêncio da paisagem foi interrompido pelos obturadores das câmeras, disparando inúmeras fotografias daquela avezinha que tanto buscamos nas últimas 06h. Naquele momento todos os quilos imaginários que eu carregava nas costas desapareceram em um passe de mágica. Mágica essa, conhecida como desafio, que é o combustível que alimenta observadores de aves a viajarem milhares de quilômetros em busca de um olhar e algumas imagens. Caramba, que saga! Certamente, como disse anteriormente, um dos dias mais exigentes que já trabalhei. Quando voltamos, ninguém conseguiu explicar como saltamos o rio e a cerca. Não restava mais força para nada a não ser voltarmos para a pousada e descansar para o último dia.

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Nos encontramos pela manhã do domingo com largos sorrisos no rosto, resultado de um dia cansativo porém recompensador. Seguimos para o Parque Nacional da Serra do Cipó. As áreas alagadas, como não poderia ser diferente, estavam secas também. As lagoas do circuito estavam bastante baixas e nossa esperança é que a sombra e a temperatura amena da mata ciliar permitisse alguns avistamentos. Sorte nossa, deu certo. Gastamos praticamente toda a manhã percorrendo as trilhas que passam pelas matas das margens do Rio Cipó e conseguimos avistar e registrar várias espécies como o sebinho-de-olho-de-ouro (Hemitriccus margaritaceiventer), soldadinho (Antilophia galeata), bico-chato-amarelo (Tolmomyias flaviventris), canário-do-mato (Myiothlypis flaveola), pica-pau-verde-barrado (Colaptes melanochloros), chorozinho-de-chapéu-preto (Herpsilochmus atricapillus), beija-flor-tesoura-verde (Thalurania furcata), estrelinha-ametista (Calliphlox amethystina) entre outros. Na volta para os alagados ainda conseguimos registrar outros como tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa) e ui-pí (Synallaxis albescens). Faltava ainda uma última tentativa de conseguir uma boa imagem de um macho de chifre-de-ouro (Heliactin bilophus) e logo após o almoço seguimos em busca do pequeno beija-flor. Apesar de raras, consegui encontrar algumas flores em uma pequena área da trilha e lá tentei atrair o bicho. Não deu outra, rapidamente um macho apareceu e nos brindou com algumas rápidas oportunidades. Mais uma vez, valeu a insistência.

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Esse foi um daqueles finais de semana onde a teimosia e a persistência fizeram toda a diferença. Natureza é isso, trabalhar com o imprevisível e contar com boas doses de sorte. Apesar de todas as dificuldades o fim de semana foi bastante proveitoso, com uma lista de 126 espécies (clique aqui e veja a lista completa) recheada de espécies importantes do Cerrado e com mais de 20 lifers para nossos clientes. Agradeço ao Parque Nacional pelas autorizações e incentivos e aos nossos clientes pela confiança e pelos excelentes momentos compartilhados.

 

Um abraço

 

EDUARDO FRANCO.

 


 

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Serra do Cipó Observação de Aves

  • Posted by Eduardo Franco
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