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August15

TRIP | Natureza na RPPN Santuário do Caraça

 

 

A Reserva Particular do Patrimônio Natural Santuário do Caraça é uma Unidade de Conservação de âmbito federal e tal título se deve a Província Brasileira da Congregação da Missão que, por iniciativa própria e pelo seu compromisso socioambiental, reservou  pouco mais de 10.000 hectares como área de conservação, com o intuito de garantir contra possíveis interesses danosos ao seu patrimônio natural. A reserva integra área destinada às Reservas da Biosfera da Serra do Espinhaço e da Mata Atlântica, reconhecidas pela UNESCO em 2005.

 

A Serra do Caraça situa-se em uma região de transição entre os domínios do Cerrado e da Mata Atlântica. Na RPPN Santuário do Caraça existem duas formações vegetais básicas, que são as campestres e as florestais. As campestres, dentro do domínio do Cerrado, e as florestais, dentro do domínio da Mata Atlântica. Destaca-se o campo rupestre, fitofisionomia dominante na Serra do Caraça, sendo predominantemente herbáceo-arbustivo, mas com a presença eventual de árvores pouco desenvolvidas. A vegetação dos campos rupestres da Serra do Caraça é pouca homogênea. Observamos que sua estrutura e composição modificam-se gradativamente à medida que aumentam a altitude, o teor de matéria orgânica e/ou a umidade. Neste ambiente, a maioria das plantas cresce nas frestas de rochas, onde a matéria orgânica e a umidade podem acumular-se mais facilmente, e poucas crescem diretamente nas rochas nuas.

 

Nos dias 05 e 06 de agosto de 2017 recebemos a observadora de natureza, Drª Helen Sant, da Inglaterra, para uma rápida passagem em Minas Gerais durante sua longa viagem pelo Brasil.

 

DIA 01 

 

A passagem da Drª Helen em MG precisou ser reduzida em razão de alteração de voos por parte da companhia aérea e isso acabou dificultando um pouco os planos, sobretudo de avistar o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), já que teríamos apenas uma noite ao invés de duas. Recebemos a Helen no Aeroporto de Confins à 11h30, paramos para almoçar e conseguimos chegar ao Caraça já no final da tarde, por volta das 16h. Após fazer o check-in, fizemos uma rápida tentativa de avistar os macacos-guigó (Callicebus nigrifrons), outro objetivo da viagem, porém nao obtivemos sucesso. Nada mais a fazer, seguimos para o jantar e depois sentamos à frente da igreja, para aguardar o lobo-guará. Clique aqui e entenda mais sobre a “Hora do Lobo”. Estava muito frio e nao foi fácil ficar por lá. Por volta das 19h45, um dos lobos apareceu. Bastante arredio, subiu rápido, pegou uma porção de comida e desceu. Não deu tempo de muita coisa, muito menos fotografia. Após alguns minutos esse mesmo indivíduo voltou, repetindo o comportamento, novamente não dando muitas oportunidades. A hipótese era a de que esse indivíduo seja jovem e, portanto, ainda sem coragem para permanecer comendo por muito tempo. O bicho não voltou mais e então fomos dormir.

 

DIA 02 

 

Por volta das 06h30, levantei e fui dar uma checada no tabuleiro de comida que é oferecido ao lobo e percebi que ela estava praticamente intacta, o que me fez acreditar que o bicho realmente não havia retornado durante a noite. Porém, como é de costume, logo pela manhã várias outras espécies aproveitam daquele resto e se aglomeram na frente da igreja para fazer uma “boquinha”. Consegui ver um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), vários caracaras (Caracara plancus), carrapateiros (Milvago chimachima), jacuguaçus (Penelope obscura), canários-da-terra (Sicalis flaveola) entre outros.

 

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Quando o relógio marcava 07h, encontrei com a Helen e propuz irmos atrás dos guigós antes do café-da-manhã, já que era a melhor hora para avistá-los. Seguimos então para a Trilha do Tanque Grande e rapidamente encontrei um grupo de 5 indivíduos, bastante ativos, que ficaram por muitos minutos acima de nossas cabeças, rendendo ótimas imagens.  Voltamos para o Santuário e tomamos nosso café-da-manhã, que é uma atração à parte do Caraça, onde você mesmo pode preparar sua refeição no fogão a lenha. Assim que terminamos partimos para a Trilha da Cascatinha, em busca de novos avistamentos de guigós e algumas aves de interesse da Helen, princpalmente saíras e sanhaços. Logo no início um bando misto deu um show na nossa frente. Vàrias saíras-douradinha (Tangara cyanoventris), saíras-lagarta (Tangara desmaresti), saíra-ferrugem (Hemithraupis ruficapilla), sanhaço-de-encontro-amarelo (Tangara ornata), sanhaço-de-fogo (Piranga flava), arredio-pálido (Cranioleuca palida), beija-flor-rubi (Heliodoxa rubricauda), beija-flor-de-papo-branco (Leucochloris albicollis) entre outros vários. Poucos metros a frente uma grande surpresa nos aguardava. Consegui escutar por duas vezes a vocalização da garrincha-chorona (Asthenes moreirae), espécie muito rara e que geralmente é encontrada em ambientes com altitudes superiores à 1400m. Infelizmente ela não vocalizou outra vez para que eu pudesse documentar com pelo menos uma gravação.

 

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Poucos metros a frente encontramos com o segundo grupo de macacos-guigó (Callicebus nigrifrons) e dessa vez facilitaram mais ainda, descendo em extratos mais baixos da floresta, permitindo melhor visualização. Ficamos um bom tempo observando esses belos e curiosos animais. Seguimos a trilha e chegamos na cachoeira da cascatinha, onde ficamos por alguns minutos curtindo aquela incrível paisagem. Na volta ainda encontramos o interessante barbudo-rajado (Malacoptila striata) e o bonito gibão-de-couro (Hirundinea ferruginea).

 

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Fizemos uma parada para o almoço, um rápido descanso e então seguimos em busca do endêmico beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), que não decepcionou e estava no mesmo poleirinho de sempre, em meio aos bonitos campos rupestres do Caraça. Rapidamente localizamos o bicho e ele permitiu excelente aproximação. Outro objetivo da Helen era avistar o surucuá-variado (Trogon surrucura), que também encontramos, já no final da tarde. Aproveitamos e ficamos curtindo a belíssima paisagem de um dos picos da RPPN.

 

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Ainda faltava o grande objetivo, o lobo-guará. A frustação da noite anterior ainda incomodava e então decidimos ficar no Cara até o último momento possível. Fizemos o check-out, guardamos toda a bagagem no carro e seguimos para o jantar. Comemos bem rápido e já descemos para a igreja, nos preparando para avistar o lobo. Dedos cruzados. Pouco antes das 19h já estávamos lá aguardando. Os minutos passavam e nada. Estabelecemos o limite de 20h, já que teríamos que voltar para Belo Horizonte, pois a Helen tinha voo no dia seguinte bem cedo. O relógio marcava 19h50 e percebi a ansiedade da Drª Helen, que olhava o relógio várias vezes. Disse para ela que poderíamos esperar mais uns 5 ou 10 minutinhos. Quando deu 20h10, no limite que tinhamos, o lobo apareceu e dessa vez era o adulto, que ficou por vários minutos a poucos metros da Helen, que finalmente atingiu seu objetivo.

 

2017.08.05_0020 Caraca

 

 

Roteiro muito corrido e mesmo assim conseguimos atingir todos os principais objetivos. Registramos, além dos mamíferos, mais de 70 espécies de aves (confira a lista completa). Agradecemos à sempre atenciosa atenção dos funcionários do Caraça. Agradecemos ao fred Tavares, da Brasil Aventuras, pela parceria e confiança em nosso trabalho.

 

Um grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

 

  • Posted by Eduardo Franco
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