BLOG

Relatos ilustrados de nossos roteiros

Você esta aqui:

December12

TRIP | Raridades do Espinhaço Sul

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros em Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira montanhosa do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos do mundo. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, o Espinhaço é certamente um dos melhores destinos para observação e fotografia de natureza do mundo.

 

Nos dias 23, 24, 25 e 26 de novembro de 2017 recebemos os observadores de aves Horácio Almeida, Leila Esteves e Viviane de Luccia uma expedição em busca de espécies bem bastante difíceis de observar em campo.

 

Não bastasse a lista de desejos ser bastante complicada, a previsão do tempo era desanimadora. Muita chuva prevista para a Região Metropolitana de Belo Horizonte para todo o final de semana.  Porém, como teimosia é uma das nossas marcas, tentamos manter o planejado no roteiro. Sendo assim, no primeiro dia seguimos rumo a Ouro Preto com a intenção de passar o dia no Parque Estadual do Itacolomi. Durante todo o trajeto pegamos tempo ruim. Chegando ao parque, a chuva deu uma breve trégua e então foi possível conseguir o primeiro e talvez mais importante lifer da viagem, o tapaculo-serrano (Scytalopus petrophilus). O bichinho até que colaborou bastante, aparecendo rapidamente e permitindo boas fotografias.

 

2017.11.23_002

 

A ideia era então seguir no parque e continuar outras buscas, mas o tempo muito ruim nos fez mudar de plano. Caia muita água e não era possível fazer nada, a não ser clicar um encharcado jacuguaçu (Penelope obscura) que limpava uma fruteira, ignorando a forte chuva que despencava dos céus.

 

2017.11.23_003

 

Voltamos, então, para Belo Horizonte, onde seguimos para o Parque Municipal Roberto Burle Marx com a intenção de registrar o cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla). No caminho, Viviane e Leila não resistiram e levaram um baita saco de jabuticaba, que se esgotou ainda no caminho. Chegamos em BH e ainda garoava, mas o cuitelão nunca falha no lugar. Apareceu e devolveu nossos ânimos, em um dia que se mostrava bastante complicado. Ainda dava tempo para tentar espremer alguma coisa de nossas botas encharcadas. Nos deslocamos até a Lagoa da Pampulha e lá encontramos mais um dos lifers desejados, a paturi-preta (Netta erythrophthalma), porém em condições péssimas, muito longe e em luz fraca. Lifer feito, mas decidimos voltar em outro dia para tentar conseguir melhores imagens. Nada mais restava para fazer, paramos em um restaurante para comer e brindar um dia difícil, porém com alguns bons resultados.

 

2017.11.23_004

 

Fui para casa com muitas dúvidas sobre o que fazer no dia seguinte, mas eu sabia que o Parque Estadual do Itacolomi era onde eu poderia conseguir mais espécies interessantes para o grupo. Na manhã seguinte propus nossa volta para Ouro Preto, que foi prontamente acatada por todos. O tempo era nublado, mas bem melhor que o anterior. OBS.: No caminho, outro saco de jabuticaba… :) Chegamos ao parque e tentamos encontrar o macuquinho-da-várzea (Scytalopus iraiensis). Essa era uma espécie que eu sabia que ocorria ali, mas que é praticamente impossível conseguir uma boa chance para foto. Tentamos atrair o bicho que respondeu imediatamente, porém não passou disso. Simplesmente desapareceu e não deu um pio se quer novamente. Enquanto tentávamos ele, fomos nos divertido com tudo o que aparecia. Fizemos registros de borboletinha-do-matosaíra-ferrugemrendeira entre outros.

 

2017.11.23_005 2017.11.23_006 2017.11.23_007

 

Enquanto os clientes descansavam um pouco, fui pesquisar em uma trilha se encontrava mais lifers da nossa lista de desejo. Adentrei em uma muito bonita, que me deixou animado. Muitas espécies ativas, cantando e forrageando bastante, aproveitando a brecha que a chuva deu. Logo a frente escutei um dos que pretendia encontrar. Procurei e confirmei, estava lá o incomum barbudinho (Phylloscartes eximius). Voltei rapidamente e chamei a turma. Chegamos lá, toquei o playback e o bicho apareceu, garantindo então mais uma conquista para nosso roteiro. Ainda conseguimos alguns bônus, registrando outros vários passarinhos bem legais.

 

2017.11.23_008 2017.11.23_009 2017.11.23_010 2017.11.23_0112017.11.23_016

 

Paramos um pouco para lanchar e descansar. Nesse momento a chuva caia novamente, mas já estávamos com algumas conquistas que valeram a volta para Ouro Preto. A tarde passeamos mais um pouco por outras trilha e novamente fomos premiados com mais alguns bichos bem interessantes, como o formigueiro-da-serra (Formicivora serrana) e a borralhara-assobiadora (Mackenziana leachii).

 

2017.11.23_012 2017.11.23_013 2017.11.23_014

 

Para quem achou que nossa vida estava difícil até ali, senta que lá vem história… O plano inicial era preencher o dia no Parque e, a noite, passar no Distrito de Glaura para tentar registrar a coruja caburé-acanelado. Apesar de sabermos que não era uma época boa para isso, já que estávamos ali, resolvemos tentar. Seguimos até o local. Chegamos e a estradinha de terra já começou a mostrar que a aventura seria intensa. Barro e muitos galhos no caminho, tendo que parar para removê-los em vários momentos. Andava, andava e andava e não encontrava o lugar que usualmente eu parava o carro. Fazia tempo que não visitava o local. De repente um galho que não estava tão fácil de remover. Paramos e seguimos a pé. Poucos metros abaixo encontrei, finalmente, o local onde parava o carro rs. Andamos alguns metros até o ponto e tocamos a coruja por várias vezes, sem ter nem uma resposta. Era o esperado, sem surpresas. Decidimos então retornar ao carro e voltar para o hotel em Belo Horizonte… só que não.

 

Entramos no carro e comecei a retornar até que… cadê que o carro saia do lugar? Desce, sobe, desce, sobe… até que de repente eu não conseguia nem descer nem subir. Atolado, por volta das 21h em uma estrada sem iluminação no meio do nada. Pego o celular para conseguir ajuda, sem sinal. Tomo a decisão de subir a estrada a pé (é uma senhora subida) para tentar conseguir sinal. Quando estamos subindo, um carro estava parado na estrada (o local funciona como um “motelzinho”). Eu com a lanterna forte piscando e gritando para o carro, tentando conseguir ajuda. Meus amigos leitores… o carro acendeu o farol alto, engatou a ré e saiu dali como o diabo correndo da cruz. Eu seguia, desesperado, correndo atrás do veículo. Nossa criatividade foi longe, imaginando o que se passou dentro do veículo vendo um bando de loucos saindo do mato com lanternas e gritando (HAHAHAHAHAHA). O carro se foi, sai na estrada asfaltada e, num reflexo imbecil, parei uma moto com dois sujeitos. Antes mesmo de explicar, me dei conta da loucura que havia feito. Como raios eu confio em dois caras em uma moto no meio do nada? (HAHAHA) Respirei, expliquei, eles disseram que não eram dali e que iriam tentar ajuda quando passassem pelo distrito. Nos restou retornar para a estrada e torcer para esses sujeitos não voltarem armados. Por sorte, nada aconteceu.

 

Respirei, pensei, liguei para a seguradora. Depois de muitos minutos tentando explicar o que aconteceu e onde eu estava, a seguradora disse que iria mandar um guincho que chegaria em 01h30, mesmo eu explicando que guincho não seria suficiente, que eu precisava de um 4×4 para me rebocar. Desisti da seguradora. Ai nesse momento todo o conhecimento de Guia de Turismo precisou ser utilizado. O que fazer? O que seria melhor para meus clientes? Pensei bastante por alguns minutos e  então peguei o telefone e liguei para uma pousada próxima, rezando para terem quartos disponíveis. Consegui reservar os quartos. Agora precisava chegar até lá, consegui um táxi. Chegamos ao local, coloquei os clientes nos seus quartos e voltei para a recepção do hotel. Expliquei para um funcionário o que havia ocorrido e ele disse que iria tentar conseguir ajuda. Por volta das 00h30, apareceu um sujeito com uma Troller e meu olho brilhou. Sujeito simpático, aparentemente temperado por algumas cervejas, andando em seu veículo a 80km/h nas vielas apertadas de Ouro Preto. Eita que noite… Chegamos ao lugar onde meu carro estava e o sujeito disse: Ih, tá fácil demais. Desceu, amarrou meu carro e foi puxando o coitado até a parte alta da estrada. Agradeci, perguntei quanto deveria pagá-lo e ele ignorou a pergunta e seguiu seu caminho. Voltei para o hotel ainda sem raciocinar direito sobre aquela noite. Entrei no meu quarto por volta das 01h15, enviei mensagem para os clientes os tranquilizando e marcando para acordarmos às 06h30 para tomarmos nosso café e seguirmos viagem. Dormir, como? Tentei sem muito sucesso. Tomei um banho de gato, afinal estávamos sem roupas e sem nossos apetrechos de higiene pessoal… enfim, sem nada além da roupa encharcada e suja e nossos equipamentos fotográficos.

 

Após um rápido cochilo, acordei com os primeiros raios de Sol e fui conferir o carro, torcendo para não ter acontecido nada na lataria. Estava muito sujo, mas nada de pior. Peguei uma escova e limpei os tapetes que estavam barro puro tentando deixar o carro usável para retornarmos. Encontrei então nossos bravos clientes, pedi um zilhão de desculpas pelo ocorrido, tomamos nosso café e voltamos para BH. Para o hotel? Que nada, seguimos direto para passarinhar….

 

Voltamos para a Lagoa da Pampulha e agora sim conseguimos registrar bem a paturi-preta (Netta erythrophthalma), além de vários outros bichinhos por ali. Paramos para almoçar e a tarde visitamos a cidade do amigo Gleidson Rezende, que nos recebeu muito bem e nos guiou em uma área de brejo onde buscávamos registrar algumas sanãs. Não tivemos muito sucesso. Os bichos até cantavam, mas o tempo estava confuso ainda. Chovia, fazia calor… Estávamos todos muito cansados também.

 

2017.11.23_015 2017.11.09_006

 

No último dia não queríamos mais saber de passarinho nem de aventuras rs. Aproveitamos o dia e fizemos um tour pela capital mineira, visitando vários pontos turísticos como o Mirante das Mangabeiras e o Mercado Central. Levaram na bagagem alguns lifers, queijos, artesanatos e muita, muita história para contar.

 

2017.11.23_017 2017.11.23_018

 

Agradeci muito a essa turma de gente animada que se tornaram muito mais que clientes, hoje são grandes amigos. Obrigado pela confiança e pela paciência. Agradeço pela força que sempre dão para meu trabalho. Obrigado! Sobre ser guia de observação de natureza: AH, que trabalho ótimo!!! Você vive viajando e se divertindo… Sabe de nada, inocente… Eita vida complicada essa nossa de mostrar passarinho pra esse povão do mundo.

 

Um grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

 

  • Posted by Eduardo Franco
  • 4 Tags
  • 0 Comments
COMMENTS