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November22

TRIP | Birdwatching no Itacolomi e Cipó

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros em Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira montanhosa do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos do mundo. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, o Espinhaço é certamente um dos melhores destinos para observação e fotografia de natureza do mundo. Nessa expedição visitamos a porção Sul da cordilheira, mais especificamente o PE do Itacolomi e a Serra do Cipó.

 

O Parque Estadual do Itacolomi está localizado entre os municípios de Mariana e Ouro Preto, na região sudeste de Minas Gerais. A unidade de conservação abriga o Pico do Itacolomi. Com 1.772 metros de altitude, era ponto de referência para os antigos viajantes da Estrada Real que o chamava de “Farol dos Bandeirantes”. O Parque possui uma área de 7.543 hectares de matas onde predominam as quaresmeiras e candeias ao longo dos rios e córregos. Nas partes mais elevadas, aparecem os campos de altitude com afloramentos rochosos, onde se destacam as gramíneas e canelas de emas. A Serra do Cipó também está localizada no Espinhaço e sua ocupação ocorreu quando desbravada por sertanistas paulistas que estabeleceram as primeiras fazendas. Passada a euforia inicial da busca do ouro a população da Serra do Cipó e do entorno dedicou-se à agricultura de subsistência, à criação de gado, à produção de cachaça dentre outros produtos. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600m e a vegetação acima de 1000m é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente os destinos do Espinhaço são procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza.

 

Nos dias 13 e 14 de novembro de 2017, recebi o observador e fotógrafo de aves João Quental, que se destaca por ser atualmente o #02 em espécies, tendo mais de 1400 passarinhos fotografados. Sendo assim, como podem imaginar, não é nada fácil conseguir espécies novas e, quando elas existem, são bastante complicadas.

 

No primeiro dia seguimos rumo à Ouro Preto, em busca de duas espécies bem incomuns, o tapaculo-serrano (Scytalopus petrophilus) e o barbudinho (Phylloscartes eximius), ambas com distribuição bastante restrita. Logo nos primeiros metros percorridos dentro do Parque Estadual do Itacolomi já tivemos uma boa oportunidade com o tapaculo-serrano. Bichinho muito pequeno, que se locomove cuidadoso por entre os galhos. Difícil de ver, quanto mais de fotografar. Porém a sorte estava do nosso lado e esse indivíduo não só apareceu rápido como deu várias boas oportunidades para fotografar. Aproveitamos e conseguimos boas imagens do bichinho.

 

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Já o simpático barbudinho não deu chance. Procurei o bicho durante todo o resto da manhã em seus territórios e nem sinal do passarinho. Ficamos indo e voltando na trilha por algumas vezes, alimentando alguma esperança, mas o barbudinho não apareceu mesmo. Não havendo outras possibilidades no local, voltamos para a estrada, agora rumo à Serra do Cipó, distrito de Santana do Riacho.

 

Almoçamos na estrada e conseguimos chegar a tempo de conseguir mais um lifer para a lista do Quental, o bacurauzinho (Nannochordeiles pusillus). Essa pequenina ave noturna, descansa sobre um dos lajedos quartzíticos da Serra do Espinhaço e é possível observá-lo durante o dia. Como essa espécie acredita fortemente na sua camuflagem (que de fato é excelente), ela só se move no último instante antes de praticamente pisarmos nela. Quando ela faz isso, conseguimos então ficar vigiando até descobrir o local onde ela pousou, facilitando assim localizar no chão. Foi assim por algumas vezes, até que então conseguimos nos aproximar o suficiente para fazer os registros que esperávamos. O dia já terminava quando decidimos então seguir para a pousada e preparar para o próximo dia. Antes de dormirmos, porém, fizemos uma tentativa se atrair o bacurau-da-telha (Hydropsalis longirostris), que não deu sinal.

 

2017.11.13_004No segundo dia seguimos viagem para Lapinha da Serra, outro distrito de Santana do Riacho/MG. O objetivo era o endêmico e  recém descrito pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis). Chegamos ao local e, sob forte vento, conseguimos localizar um indivíduo em um dos pontos conhecidos. O bicho ficou forrageando por um longo tempo na margem de um riacho, porém na margem contrária em que estávamos, o que não ajudou muito na fotografia. Entretanto, mesmo com a não colaboração do bicho, o registro satisfez nosso cliente.

 

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Aproveitando que estávamos por ali, o Quental pediu que tentássemos encontrar os outros dois endêmicos do espinhaço, o beija-flor-de-gravata-verde e o lenheiro-da-serra-do-cipó. Assim como no último roteiro, o lenheiro não deu muita chance, apesar de que essa vez ele apareceu, só não rendeu boas imagens. Esse era um sinal que era o momento para trocar de trilha, já que por duas vezes seguidas aquela não estava funcionando. Essa é uma preocupação que todos guias devem ter, observar quando determinada trilha precisa de descanso, evitando assim perturbar em exagero as espécies que ocorrem no local. A grande decepção ficou por conta do beija-flor. Dessa fez o “augustinho” fez feio e não apareceu sequer uma vez. Em três anos, pela primeira vez o pequenino não apareceu no seu território. Vida que segue, voltamos para a Serra do Cipó e paramos rapidamente para almoçar.

 

Os três principais lifers que eu acreditava que seriam possíveis já estavam fotografados e ainda havia tempo para buscar outras possibilidades, mesmo que essas não fossem nada fáceis. Uma delas é o macuquinho-da-várzea (Scytalopus iraiensis). Chegamos no local e conseguimos ouvir o bichinho e, por incríveis 3 vezes, o danado alçou voo por cima do capim, permitindo que pela primeira vez eu colocasse meus olhos nele. Não passou disso, foto que é bom, sem chance. porém no local outras duas espécies bem importantes apareceram e deram show, o papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta) e o canário-do-brejo (Emberizoides ypiranganus), duas espécies muito incomuns na região. Apesar de não serem lifers, recompensaram nossa investida naquele ponto. Ainda naquele dia voltamos a tentar o bacurau-da-telha e o joão-corta-pau, que não deram muita chance.

 

2017.11.13_0062017.11.13_007 2017.11.13_003Esse foi um daqueles roteiros desafiantes, que faz muito bem para a carreira do guia, onde ele é pressionado para conseguir mostrar aquelas espécies mais complicadas dentro da sua região de atuação. Além disso, é muita honra e uma baita oportunidade estar com um dos caras que representa a observação de aves do Brasil mundo afora, possuindo uma incrível coleção de mais de 1400 espécies de aves brasileiras fotografadas, fora as demais em outros países. Foi um prazer imenso poder passar dois dias aprendendo com o João Quental, que sabe muito sobre essa brincadeira de olhar passarinho. Muito obrigado pela confiança em meu trabalho.

 

Um grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

 

PS. Das coisas curiosas da observação de aves. Após viajar quilômetros e tentarmos duas noites encontrar o bacurau-da-telha sem sucesso, o João teve a oportunidade de ver dois deles, durante o dia, e fazer uma baita foto rsrsrs… Vai entender, não é mesmo? Dessas coisas que nos fazem viciados no que fazemos. Clique aqui e confira a foto.

 

  • Posted by Eduardo Franco
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