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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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November20

TRIP | Birdwatching no Espinhaço Sul

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros em Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira montanhosa do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos do mundo. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, o Espinhaço é certamente um dos melhores destinos para observação e fotografia de natureza do mundo. Nessa expedição visitamos a porção Sul da cordilheira, principalmente as Serras da Moeda e do Cipó.

 

Serra da Moeda é uma cadeia de montanhas localizada no Quadrilátero Ferrífero. Possuindo Unidades de Conservação, como o Monumento Natural da Serra da Calçada, configura-se como uma importante área para a conservação da flora e fauna. A Serra do Cipó também está localizada no Espinhaço é protegida por importantes reservas, como a APA Morro da Pedreira e o Parque Nacional da Serra do Cipó. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600 metros e a vegetação acima de 1000 metros é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente as Serras da Moeda e do Cipó são destinos procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza.

 

Nos dias 09, 10 e 11 de novembro de 2017 recebemos os observadores de aves baianos Allisson Cafeseiro, Wandinaldo Teixeira e Rodrigo Bittencourt, para a sua primeira viagem fora da Bahia, em busca de espécies típicas do Cerrado Mineiro.

 

Os problemas começaram a aparecer antes mesmo do roteiro começar. A previsão do tempo era das piores, 60, 80 e 90% de possibilidade de chuva. Apesar de saber que as condições climáticas em ambientes serranos são bastante imprevisíveis, esses números aumentavam a ansiedade. Por mais que nos esforcemos, observação e fotografia de natureza ficam bastante prejudicados em dias chuvosos. Restava torcer para que a chuva não fosse forte. Começamos os trabalhos saindo do hotel em Belo Horizonte, com destino à Brumadinho. Chuviscava, o que me deixou mais preocupado. Paramos rapidamente para o desjejum e seguimos para à Serra da Moeda. Montamos o equipamento e arriscamos. Quando chegamos na parte alta da trilha, a neblina dificultava enxergar, o vento gelava os baianos e a chuva molhava bastante. Não restava opção e voltamos para o carro. Não queria perder a manhã, alterei o roteiro e então descemos novamente para Belo Horizonte, para o pé da Serra do Rola Moça, onde visitamos o Parque Municipal Burle Marx. A chuva havia reduzido, mas ainda incomodava. Tentava de todas formar levantar o ânimo do grupo, mas nada como o primeiro lifer para esquecerem das condições climáticas. Não era qualquer lifer, era o cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla), espécie muito interessante, com distribuição bastante restrita. Um pouco antes registramos também o enferrujado (Lathrotriccus euleri), um pequeno e discreto tiranídeo. Ainda no parque, registramos várias espécies em um bando misto, como o picapauzinho-barrado (Picumnus cirratus), o chorozinho-de-chapéu-preto (Herpsilochmus atricapillus), tangarazinho (Ilicura militaris) entre outros.

 

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A chuva era pouca, mas persistente. Decidi então partir para a Lagoa da Pampulha, onde poderíamos passarinhar um bom tempo de dentro do carro, parando apenas em alguns pontos estratégicos. A opção se confirmou como a mais acertada na medida que fomos encontrando mais lifers. Logo que chegamos encontramos um socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax), que rendeu lindas imagens. Depois encontramos várias marrecas: irerê (Dendrocygna viduata), marreca-cabocla (Dendrocygna autumnalis), ananaí (Amazonetta brasiliensis) e paturi-preta (Netta erythrophthalma). Apareceram também os pernilongo-de-costas-brancas (Himantopus melanurus) e pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus) e alguns maçaricos.

 

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Em algumas palmeiras baixas, encontramos um bando de periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri) se acabando nos coquinhos. A grande surpresa ficou para o final, quando o Allisson avistou um trinta-réis sobrevoando a lagoa. Imediatamente me juntei a ele e comecei a fotografar o bicho, já que sabia que era certamente uma rara aparição, pois esses bichos dificilmente são avistados por aqui. Sim, era raro, e foi o primeiro registro para a cidade, e um dos raros registrados dentro do continente. Trata-se do trinta-réis-ártico (Sterna paradiseae). A identificação foi possível graças a várias contribuições de colegas ornitólogos, principalmente do Fábio Olmos, a quem agradeço. Encerramos então nossa manhã e paramos para o almoço.

 

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A tarde decidimos retornar à Serra da Moeda e tentar, dessa vez sem chuva, percorrer a trilha sem maiores problemas. Valeu a pena! Conseguimos boas chances com algumas espécies importantes, como o rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda) e o tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata). Também apareceram o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) e a maria-preta-de-garganta-vermelha (Knipolegus nigerrimus). Por último, após tentarmos muito, o formigueiro-da-serra (Formicivora serrana) parou por alguns preciosos minutos em um poleiro bem à nossa frente. Não rendeu maravilhas de imagens, mas já é algo para comemorar, pois essa espécie não costuma facilitar. Nada mais a fazer, seguimos viagem para a Serra do Cipó, distrito de Santana do Riacho/MG.

 

2017.11.09_010 2017.11.09_011 2017.11.09_012 2017.11.09_013No segundo dia fomos para o distrito de Lapinha da Serra, e logo de cara fizemos algumas tentativas de atrair o endêmico lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae), todas sem sucesso. Muito vento, chuva e frio. Pouca ou nenhuma resposta. As condições climáticas estavam péssimas, mas não tínhamos muito o que fazer a não ser tentar o máximo, insistir. Decidimos então seguir trilha e, logo nos primeiros metros começamos a avistar vários indivíduos, macho e fêmea, do beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus). Conseguimos alguns bons registros, mas não deixamos de visitar o “augustinho”, que para meu alívio ainda está utilizando a área mesmo após o incêndio que destruiu boa parte da paisagem. Porém, com poucas flores disponíveis, aparentemente o bichinho está precisando se deslocar mais para conseguir alimento. Próximo dali, também fotografamos o caminheiro-de-barriga-acanelada (Anthus hellmayri).

 

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Já na volta, voltamos a insistir no lenheiro, que continuou sem dar chance, até desistirmos. Antes de encerrarmos, um grupo de batuqueiro (Saltatricula atricollis) deu um mole danado, rendendo boas imagens. Na estrada que nos lavaria para o restaurante, ainda conseguimos registrar três indivíduos do capacetinho-do-oco-do-pau (Microspingus cinereus).

 

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Após o almoço fomos atrás do pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis), que não decepcionou. Estava por lá e fez aquela pose em cima da cerca. Antes dele ainda conseguimos avistar e fotografar várias espécies, como o graveteiro (Phacellodomus ruber) – que exibiu um curioso comportamento de disputa, interessantíssimo de observar, o caminheiro-zumbidor (Anthus lutescens) e o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris). Antes de retornarmos para a pousada, fizemos uma parada para fotografarmos algumas espécies interessantes, como um jovem macho de soldadinho (Antilophia galeata), o tico-tico-de-bico-amarelo (Arremon flavirostris) e o pula-pula-de-sobrancelha (Myiothlypis leucophrys).

 

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Paramos para almoçar e logo depois seguimos trilha atrás do bacurauzinho (Nannochordeiles pusillus), que foi o último passarinho que iriamos ver antes de chover de verdade, sendo então impossível continuar. Voltamos para a pousada, banho quente e bate-papo. Quando achávamos que não tinha mais nada de novo para aparecer, a chuva deu um tempo e tentei localizar uma pipira-da-taoca (Lanio penicilatus) que não deu muito mole, mas rendeu boas imagens para os colegas baianos.

 

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Encerramos nosso tour com uma lista geral de mais de 160 espécies (clique aqui e confira a lista completa), sendo que aproximadamente 40 foram novidades nas listas pessoais dos meus clientes. Apesar das adversidades, mais um roteiro concluído com sucesso, graças as boas parcerias que conseguimos por onde passamos. Agradeço aos amigos pela confiança no meu trabalho e espero revê-los em breve!

 

Um grande abraço

 

EDUARDO FRANCO

  • Posted by Eduardo Franco
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