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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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August10

TRIP | Birdwatching no Espinhaço Sul

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros em Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira montanhosa do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos do mundo. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, o Espinhaço é certamente um dos melhores destinos para observação e fotografia de natureza do mundo. Nessa expedição visitamos a porção Sul da cordilheira, principalmente as Serras da Moeda e do Cipó.

 

Serra da Moeda é uma cadeia de montanhas localizada no Quadrilátero Ferrífero. Possuindo Unidades de Conservação, como o Monumento Natural da Serra da Calçada, configura-se como uma importante área para a conservação da flora e fauna. A Serra do Cipó também está localizada no Espinhaço é protegida por importantes reservas, como a APA Morro da Pedreira e o Parque Nacional da Serra do Cipó. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600 metros e a vegetação acima de 1000 metros é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente as Serras da Moeda e do Cipó são destinos procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza.

 

Nos dias 28, 29 e 30 de julho de 2017 recebemos o casal de observadores de aves, Rita Carvalho e Henrique Coelho, para um roteiro em busca de algumas das características espécies do Espinhaço Mineiro.

 

Dia 01: Nosso roteiro começou muito bem, com um lifer logo no início, quando a choca-de-asa-vermelha (Thamnophilus torquatus) rendeu excelentes imagens para os dois. Ainda naquele ponto, um bando de várias espécies apareceu e deu muita chance para fotografia bonita. Coleirinhos, saíras, papa-capins… Uma festa danada. Outro objetivo, o rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda), não facilitou hora nenhuma, mas mesmo assim foi fotografado. Tentamos sem muita esperança ver a maxalalagá (Micropygia schomburgkii), que respondeu e como previsto não apareceu. Por último fui em busca do formigueiro-da-serra (Formicivora serrana). No primeiro ponto o bicho respondeu e não deu chance. No segundo ponto, respondeu e rapidamente apareceu na borda na mata, rendendo uma boa imagem dessa que é um das espécies mais complicadas de se fotografar no roteiro.

 

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Após o almoço seguimos para o segundo local do dia e lá conseguimos registrar muitos lifers, como o ameaçado cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla), a saíra-ferrugem (Hemithraupis ruficapilla) e o bagageiro (Phaeomyias murina). Além deles, outras belezas apareceram, como a saíra-de-chapéu-preto (Nemosia pileata) e o chorozinho-de-chapéu-preto (Herpsilochmus atricapillus). No caminho para a Serra do Cipó, ainda demos um parada na Lagoa da Pampulha, onde adicionamos outros dois lifers na lista, o pernilongo-de-costas-negras (Himanpotus mexicanus) e a paturi-preta (Netta erythrophthalma). Um início de roteiro fantástico, com uma importante lista e muito boas imagens no cartão de memória.

 

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Dia 02: Com um primeiro dia tão bom, acordamos animados pela sequência. Seguimos para o distrito de Lapinha da Serra, com objetivo de encontrar as espécies endêmicas. A primeira tentativa foi com o pica-pau-chorão (Veniliornis mixtus), que não facilitou. Ele não vocalizou hora nenhuma, dificultando muito localizá-lo em campo. Tentamos por mais de 01h e nem sinal. Muito vento e frio, como de costume nessa época do ano. Desistimos, entramos no carro e partimos para o próximo. Poucos metros depois, dois cochichos (Anumbius annumbi), estavam empoleirados e decidimos tentar fotografar, de dentro do carro mesmo. Nesse instante escutei uma vocalização do pica-pau. Desci do carro para ter certeza e confirmei. Encostei o carro e lá fomos nós novamente e, dessa vez, finalmente conseguimos algumas imagens. Não eram as melhores, mas era o registro necessário. Partimos, agora sim, para a sequência do dia. Logo no início do próximo trecho de trilha, avistamos um macho de beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), que forrageava bravamente, brigando contra  ventania. Conseguimos algumas chances e garantimos então o registro. Partimos para o lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae) que não deu a menor chance. Vocalizou rapidamente, apareceu em várias oportunidades, mas o vento não deixava ele ficar nenhum poleiro que permitisse fotografá-lo. A Rita ainda chegou a conseguir uma foto apenas, quando o bicho estava se protegendo embaixo de uma pedra. Após horas tentando, resolvi seguir. Na próxima parada, um pica-pau-chorão macho apareceu e, dessa vez, deu um show. Ficou por vários minutos em um mesmo poleiro, agora sim com fotos muito boas.

 

Decidi então voltar e tentar mais um pouco com o lenheiro, sem sucesso. A hora avançou e precisamos seguir quando, no caminho, a Rita nos alertou sobre algum animal cruzando a trilha. Não percebi que ela nos chamava e quando olhei consegui avistar apenas o último dos três indivíduos que passaram. Quando olhei, apenas reparei na cauda longa e escura. Pensei na hora em um gato-mourisco (Puma yagouaroundi). Corri uns metros para tentar avistar os bichos e, muito metros a frente percebi o movimento dos três nas rochas, quando ai então percebi que estava enganado e se tratavam de três iraras (Eira barbara), mamífero extremamente difícil de se observar em campo. Baita de um presente, sendo que foi uma das poucas oportunidades que tive de observar mamíferos nos roteiros no Cipó, graças aos olhos atentos da Rita Carvalho.

 

Fiquei encantado de ver aqueles bichos, o que me deu um pouco mais de ânimo. Partimos então para tentarmos o pedreiro-da-serra-do-espinhaço (Cinclodes espinhaensis), que não apareceu em nenhum dos pontos que visitamos. Isso me deixou extremamente desapontado, já que era o primeiro dia em mais de dois anos que eu visitei o local e não consegui avistar aquele passarinho. Não tínhamos muito mais o que fazer, voltamos para a pousada. Durante o caminho, bastante chateado, convenci aos dois que valia muito a pena tentar voltar no local do último dia, para tentarmos novamente. Aquelas eram espécies endêmicas e dificilmente eles as encontrariam em outro lugar. Convenci os dois, e então fomos dormir, descansando para o segundo dia de tentativa.

 

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Dia 03: No último dia, seguimos com o planejado. Acordamos um pouco mais tarde e, logo após o café-da-manhã, seguimos para o ponto onde pretendíamos ver e registrar a choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus), que geralmente aparece bem rápido e dava para tentar antes dos endêmicos. Tiro certo, o dia estava bonito, chegamos e em poucos minutos o bicho apareceu e rendeu algumas imagens. O otimismo havia aumentando quando, de repente, o dia virou completamente e chegou a garoar. Um olhava para a cara do outro, tentando decidir o que fazer. Voltar para a pousada não era uma possibilidade e resolvi então arriscar. Entramos todos no carro e voltamos para Lapinha da Serra. As condições climáticas eram semelhantes ao dia anterior, o que não era nada animador. Começamos dessa vez com o pedreiro-da-serra-do-espinhaço (Cinclodes espinhaensis). Paramos no primeiro ponto, nem sinal. Segundo ponto, nem sinal. Terceiro ponto, o bicho respondeu e empoleirou, longe. Um ou dois cliques e o bicho desapareceu na vegetação. Perguntei se alguma imagem seria aproveitável e a resposta foi negativa. Meti o pé na trilha e fui atrás do bicho… Foram necessários uns 40 minutos até que o bicho respondeu novamente e a Rita e o Henrique avistaram um indivíduo, forrageando no chão. Seguimos atrás do pedreiro por mais longos minutos, até que foi possível, finalmente, algumas fotos decentes. UFA! Primeiro objetivo atingido, um dos endêmicos documentados e eu continuo com a marca de nunca ter saído da Serra do Cipó sem mostrar esse bicho para os clientes.

 

Agora sim, com o otimismo recuperado, seguimos para tentar o lenheiro. Havia muito pouco tempo, teríamos cerca de 02h para chegar até o local e conseguir achar o bicho. Já passava das 10h quando começamos. Ainda na trilha, consegui ouvir um indivíduo e imediatamente segui atrás dele. Não consegui mais nenhuma resposta nem avistamento. Após alguns minutos, outro indivíduo vocalizou e lá fomos nós novamente. Nada, o bicho havia desaparecido novamente. Quando o relógio marcou 12h, minhas energias estavam no final, e decidi tentar mais 30 minutos, que seria o nosso limite, pois precisávamos almoçar, organizar a bagagem e retornar para o aeroporto. O relógio marcou 12h30 e o Henrique tomou a decisão: “precisamos ir”. Minha reação foi abaixar a cabeça e concordar. Retornamos para a trilha e iniciamos nossa volta.  Repentinamente tive a impressão de ouvir um dos chamados do bicho. Não comentei nada com eles e toquei o playback uma vez. O lenheiro respondeu. Meu coração foi na boca e tomei uma dose cavalar de adrenalina. Pedi que os dois se posicionassem em frente a uma pedra e aguardassem. Reproduzi a voz do bicho mais uma vez e, como num passe de mágica, ele surge atrás da pedra. Alguns segundos (eternos) de silêncio e, só então, consegui ouvir os disparos das câmeras. Me afastei devagar, virei de costas e soltei um baita de um palavrão, seguidos de desculpas pelo desabafo rs. UFA!!! Rapaz, lifer muito difícil e com requintes de crueldade, registrado aos 49 minutos do segundo tempo. Que dia! Que roteiro! Que sufoco! Não dá para explicar essa sensação, quem ainda não passarinha precisa sentir para entender. Objetivos atingidos, finalmente, retornamos para a pousada e seguimos para o aeroporto, com a bagagem recheada de muita emoção.

 

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Roteiro suado que precisou de muita insistência. Uma foto não depende apenas de um bom fotógrafo e um bom equipamento. Cada imagem gerada guarda muita história por trás, que só quem se dedicou sabe o real valor que tem. Sem a paciência e a confiança do Henrique e da Rita, não seria possível obter os resultados.

 

Agradecemos a todos os parceiros da Destinos MG que são fundamentais para o sucesso de nossos roteiros. Agradecemos também a nossos clientes pela confiança em nós depositada.

 

Grande abraço,

 

EDUARDO FRANCO

  • Posted by Eduardo Franco
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