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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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September12

WORKSHOP | Birding, Turismo e Travessias

 

 

O Projeto Travessias do Parque Nacional da Serra do Cipó é uma iniciativa da gestão compartilhada do PARNA e da APA Morro da Pedreira, que teve o apoio do Conselho Consultivo e das prefeituras e moradores das localidades que dão acesso à Serra do Cipó. Também ajudaram voluntários, brigadistas e servidores, que definiram os melhores traçado dos trajetos, percorrendo cada trecho e propondo os ajustes necessários. Parte importante desse processo é a instalação de novos portais de acesso ao parque nacional, previstos para serem abertos em localidades que se conectam aos roteiros das travessias.

 

Em paralelo ao Projeto Travessias, a bióloga Drª Lorena Oporto consultora contratada pelo PNUD/ICMbio para coordenar o Projeto de Capacitação do Conselho Consultivo Integrado APA-PARNA (PNUD/ICMBio), que tem como objetivo capacitar as comunidades do entorno do parque frente a abertura dos novos portais de acesso e o consequente aumento do fluxo turístico. Um desses locais é o povoado de Serra dos Alves, em Itabira/MG, onde fomos convidados para falar de passarinho e pousamos no último dia 31/ago com nossa Oficina de Turismo de Observação de Aves.

 

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Iniciamos partindo do PARNA da Serra do Cipó e o caminho em si já é parte importante da viagem. Cortar a Serra do Cipó de oeste a leste é sempre uma experiência fascinante. Cerrados, campos rupestres e afloramentos quartzíticos amolduram paisagens de tirar o fôlego. Possível perceber como a vegetação vai se alterando a medida que saímos do Cerrado (face oeste) e entramos da Mata Atlântica (face leste).

 

Chegamos ao nosso destino já no final da tarde e tive oportunidade de conhecer os simpáticos Melão e Helena, proprietários  da Casa de Cultura Hospedaria e Comida Artesanal. Lugar que passei a noite, logo após experimentar o delicioso chopp artesanal produzido pela família. Poucos minutos de uma prosa gostosa, falando sobre muitos assuntos coincidentes das nossas vidas como biólogos. Tive também o enorme prazer de reencontrar a Luciana, moradora de Serra dos Alves que participou do #vempassarinharMG que coordenei no Parque Estadual do Limoeiro. Aliás, Luciana é uma das responsáveis pela nossa ida até o local. Antes de me recolher, caminhando pelo entorno, percebi grande movimentação de avifauna noturna. Não poderia ser diferente, corri na bagagem e fui logo pegando câmera e lanterna, iniciando os trabalhos. Sem muito esforço já foi possível registrar o interessante bacurau-tesoura e a simpática corujinha-do-mato, que me fez companhia praticamente a noite inteira, caçando bem próximo ao meu quarto. Gastei um bom tempo curtindo os bichinhos antes de dormir.

 

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Na manhã seguinte acordei bem cedo e sai para fazer um rápido reconhecimento em trilhas que pretendia utilizar no workshop. Antes mesmo de iniciar, uma bicharada muito ativa já marcava presença no entorno da hospedaria. Quando comecei a trilha, me deparei com um ambiente interessantíssimo, campo rupestre coberto de areia branca e abaixo dos 900 metros de altitude. Vegetação arbustiva típica, coberto de muita canela-de-emasempre-vivas. Encontrei aves interessantes como o  papa-moscas-do-campo e o saci, que deu um mole danado, algo muito raro para a espécie. Bastante água na região, mesmo em época de seca, o que favorece muito a diversidade da avifauna.

 

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A segunda caminhada fiz às margens do Rio Tanque, que nasce no lugar e me surpreendeu com tamanha beleza e riqueza de cores e vegetação. A quantidade de passarinhos que avistei por ali me deixou ainda mais impressionado. Não apenas pela quantidade, quando pela presença de espécies muito interessantes e incomuns na região, como a pipira-vermelha, que possui pouquíssimos registros no Espinhaço. Avistei também joão-pobre, saí-andorinha, chorão entre outros vários.

 

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Antes do almoço aproveitei para dar uma volta no pequenino lugarejo e me encantei com o capricho com que os moradores mantém suas casas e comércios. Várias casas de pau-a-pique muito bem cuidadas. Ruas limpas e paisagens incríveis emolduram as edificações. No centro a simpática capela de São José.

 

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Fiz um intervalo para almoçar e… caramba, que comida gostosa! No bom mineirêz: Nú! Eu que sou bem chato para comer me acabei. Tudo muito bem preparado (e temperado) pela querida Fatinha, mãe da Luciana, que nos recebeu muito bem em sua casa. Enquanto os pratos iam se repetindo a prosa ia fluindo. Tudo muito simples, do melhor jeitinho do interior de Minas.

 

Aproveitei o restante da tarde para descansar e acertar os últimos detalhes para a aula teórica, enquanto aguardávamos os participantes da oficina, que eram conselheiros e moradores das comunidades de Lapinha da Serra, Serra do Cipó, São José da Serra, Altamira, Lapinha do Morro e, obviamente Serra dos Alves.

 

Nos reunimos no Centro Comunitário na hora marcada e me emocionou muito a quantidade de gente na pequena salinha. Gente de tudo que é lugar, tudo que é idade e tudo que é expectativa. Que enorme prazer e honra poder falar de passarinho para uma gente tão diversificada como essa. Estavam lá gestores, brigadistas, condutores e guias, moradores…

 

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Ficamos a noite inteira trocando ideias e eu pude apresentar todo um caminho para que a observação de aves possa se tornar um produto turístico no local.  O potencial é enorme, já que apenas naquela manhã eu havia registrado uma lista de aproximadamente 100 espécies de aves. Foi importante perceber que a observação de aves já alcançou lugares que eu nem imaginava. Muitas daquelas pessoas já tinha algum conhecimento sobre o que se tratava essa tal atividade de olhar e fotografar passarinho. Encerramos lá por volta das 23 horas e o combinado era que às 06 horas todo mundo já estivesse acordado para seguirmos com a prática.

 

No horário marcado as primeiras pessoas começaram a aparecer. Todo mundo com um baita sorrisão no rosto e um bocado de vontade de sair atrás de passarinho. Conversas sobre binóculos e câmeras foram ocupando o tempo quanto a turma chegava.

 

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Saímos então para a trilha e o objetivo era mostrar para todos como funciona um dia de observação de aves. Mostrar como um guia precisa conduzir seus clientes e como ele deve utilizar as ferramentas e técnicas para viabilizar a melhor experiência do turista, tudo dentro de uma série de critérios éticos, respeitando a cultura e o ambiente local. Conversamos muito também sobre a importância do resgate da interpretação ambiental nas atividades de natureza como um geral. Saber aproveitar cada item das trilhas em favor da educação e da conservação, não importando qual o objetivo principal da atividade conduzida.

 

Ao final de primeira parte, recebemos o convite de visitar o pomar de uma moradora, Letícia, que fez questão de nos apresentar seu sítio. Valeu muito a insistência. Além de ser um local lindíssimo, a quantidade de aves que vivem por lá me deixou super entusiasmado. Da varanda da casa era possível encontrar uma série de aves lindíssimas, como o tiê-sangue, corrupião, teque-teque e muitos beija-flores.

 

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Fomos presenteados por um lanche muito gostoso e mais um bocado de boa prosa sobre como havia sido nosso dia. Retornamos para o centro comunitário onde encerramos a oficina com uma série de dinâmicas muito bem conduzidas pela Lorena e pela Romina, gestora do PARNA-APA. Ao final todos tiveram a oportunidade de comentar sobre sua experiência naqueles dois dias e, como não poderia de ser diferente, foi difícil conter algumas lágrimas. Muito emocionante perceber que um pouquinho de troca de experiências podem mudar todo o caminho e a perspectiva de pessoas e lugares. Por essas e por outras que eu e nós da Destinos MG não vamos parar nunca de seguir nosso objetivo de levar passarinho para todos os cantos dessa nossa Minas Gerais.

 

Em tempo, vale lembrar que em breve Serra dos Alves receberá seu portal de entrada no PARNA da Serra do Cipó e a Travessia Alto Palácio x Serra dos Alves será totalmente sinalizada, fazendo esta parte da Trilha Transespinhaço, que faz parte do Sistema Brasileiro de Trilhas de Longo Curso e ligará Belo Horizonte até Diamantina, em 700 quilômetros de paisagens de tirar o fôlego.

 

Certamente eu deixarei alguém para trás, mas não posso deixar de agradecer muito a toda a equipe do Parque Nacional da Serra do Cipó que são parceiros fantásticos e que desde sempre acreditaram no meu trabalho. Muito obrigado a Drª Lorena por abrir as portar do projeto para a observação de aves e muito obrigado a toda comunidade de Serra dos Alves que me receberam de maneira tão carinhosa. Muito obrigado a Zelda, do Coletivo dos Condutores do Espinhaço, por ser uma importante parceira e por ter uma enorme capacidade de mobilização. Sem ela essa turma não seria tao grande. Para encerrar obrigado a todos os participantes da oficina, que abrilhantaram muito nosso trabalho.

 

Um enorme abraço a todos,

 

EDU FRANCO

 

  • Posted by Eduardo Franco
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