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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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September05

BIRDING TOUR | Serra do Espinhaço 23-25/ago

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros entre Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, é certamente um dos melhores destinos para turismo de natureza do mundo. Nessa expedição visitaremos a porção Sul da cordilheira, principalmente as Serras da Moeda e do Cipó. A Serra da Moeda está localizada no Quadrilátero Ferrífero. Possuindo Unidades de Conservação, como o Monumento Natural da Serra da Calçada, configura-se como uma importante área para a conservação da flora e fauna. A Serra do Cipó é protegida por importantes reservas, como a APA Morro da Pedreira e o Parque Nacional da Serra do Cipó. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600 metros e a vegetação acima de 1000 metros é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente as Serras da Moeda e do Cipó são destinos procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza

 

Nos dias 23 a 25 de agosto recebemos os observadores de aves Márcia Tavares, José Laércio Junqueira e Daniel Perrela para mais uma birding tour pela porção Sul da Cadeia do Espinhaço.

 

Iniciamos nossa viagem visitando o Monumento Natural Estadual da Serra da Calçada, em Brumadinho/MG, ponto inicial da Serra da Moeda que se estende até o município de Congonhas/MG. Poucos passos após começar a trilha já fomos presenteados com a belíssima saíra-douradinha, que ficou um bom tempo paradinha em nossa frente. A turma aproveitou para aquecer os dedos e abrir a porteira dos lifers.

 

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Pouco mais a frente um arbusto seco apareceu surpreendentemente muito bem iluminado. Não desperdiçamos a oportunidade e tentamos atrair algumas espécies, que vieram e renderam muitas lindas imagens. O destaque vai para a belíssima choca-de-asa-vermelha, o bico-de-veludo e o comum, mas simpático, baiano.

 

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Seguimos subindo a trilha e, em seu ponto mais alto (aproximadamente 1.500m), encontramos a arredia corruíra-do-campo vocalizando entre as touceiras do denso capim. Tentamos nos aproximar dela o máximo possível e, bastou um toque no playback e ela apareceu em um poleiro bem limpo. Em outro arbusto, não muito longe, vocalizava também o tapaculo-de-colarinho. Chegamos a colocar o olho nele algumas vezes, mas em determinado momento ele se calou e não voltou a aparecer. Estavam um tanto quanto quietos, mas não demorou muito e também encontramos um dos principais objetivos da manhã, o rabo-mole-da-serra. Antes de encerrarmos a trilha, ainda conseguimos avistar o pequenino papa-moscas-de-costas-cinzentas.

 

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Encerramos a manhã antes do previsto e saímos diretamente para a Serra do Cipó ainda antes do almoço. No caminho fizemos uma rápida parada em Belo Horizonte/MG, no Parque Municipal Roberto Burle Marx, para registrar o cuitelão. Como brinde ainda levamos um beija-flor-tesoura-verde na mala.

 

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Chegamos ao distrito de Serra do Cipó, fizemos nosso check-in e um intervalo para almoço. Após organizarmos tudo ainda aproveitamos o final da tarde e conseguimos avistar duas espécies interessantíssimas, a choca-do-nordeste e o fruxu-do-cerradão, que nos surpreendeu dando uma chance que geralmente não acontece. Encerramos o dia com muitos lifers e um dos belos espetáculos que o final do dia proporciona no Espinhaço.

 

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Como de costume, o segundo dia de roteiro foi no vilarejo de Lapinha da Serra. Saímos ainda de madrugada e pegamos estrada por cerca de 1 hora. Chegando lá tomamos nosso café-da-manhã improvisado e metemos o pé na trilha. Vento forte e muito frio, como não poderia ser diferente, atrapalharam bastante nossa primeira tentativa de avistar o lenheiro-da-serra-do-cipó. Aguardamos por muito tempo algum sinal, chegamos até a ouvir algumas vocalizações, mas nada de ver o bicho. Tentei em dois pontos e nenhum deles funcionou. Ali já percebi que seria um dia daqueles… Paciência, natureza. Seguimos então até o território do augustinhobeija-flor-de-gravata-verde. Ai a surpresa maior, nem ele apareceu. Aguardei e procurei o bichinho em todo canto que ele costuma visitar e nem sinal dele. Nem dele, nem dos outros que circulam por ali… enquanto isso uma tesoura-do-brejo nos distraiu um pouco.

 

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Sem sinal do beija-flor, convidei a turma a tentarmos um terceiro ponto para o lenheiro. Não seria fácil, muitos metros acima em trilhas de pedra solta. Um sufoco para chegar, pior para descer, principalmente pois nem lá em cima consegui mostrar o bicho. Esse é um dos momentos complicados na vida de guia de birding. Duas ausências das três espécies mais importantes do roteiro. Percebi que ali não iria adiantar insistir e precisei desistir e retornar. Manhã praticamente perdida…

 

Para compensar, ao menos o pedreiro-do-espinhaço não fez feio. Apareceu rápido e deu muitas chances, mesmo no calor do meio do dia. Fizemos uma pausa para almoçar e aproveitei o tempo para tentar convencer o grupo de tentarmos um último ponto do lenheiro, que seria bem mais complicado do que todos os outros. Para minha alegria (e desespero rs), eles aceitaram. A partir desse momento eu me agarrei a todas as esperanças e superstições possíveis, mesmo não acreditando tanto nessas coisas…

 

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Lá fomos nós morro acima, em trilhas desafiantes e embaixo de muito Sol. A cada passo (e escorregão) eu ia tentando perceber algum sinal da presença do bicho. Quando atingimos metade da trilha, comecei a tentar atrair a ave com o uso do playback. A cada tentativa sem resposta meu desespero ia aumentando. tentava disfarçar e seguir mostrando confiança para  grupo. Em uma das paradas para descanso, respirei fundo e fiz uma outra tentativa e… nada. Esperei alguns momentos em silêncio e ainda nada. Quando começamos a andar novamente, por algum milagre auditivo, eu ouvi um trinado quase inaudível que achei ser do lenheiro. Surpreso, avisei a todos que iria tentar novamente. Bastou um toque e, finalmente, o famigerado apareceu no alto de uma pedra vocalizando muito alto. Arrumei uma correria e tentei colocar todos em posição de fotografia e em poucos segundos o bicho sumiu novamente. Olhei para trás e fiz a tal pergunta: e ai, conseguiram? Um eterno segundo de silêncio e percebi que iria receber apenas um: é… tá registrado. Alívio, mas nem tanto.

 

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As fotos não estavam ruins, mas nem de perto era o que eu esperava após um dia inteiro de muitos quilômetros e horas atrás de uma espécie apenas. Decidi dar um descanso para esse indivíduo e seguir para outros pontos. Testei um e nada. Testei dois, nada… Resolvemos sentar e descansar um pouco. Enquanto isso encontramos com dois colegas brigadistas… Ah! Esqueci de mencionar esse detalhe, que emoldurava com mais dramaticidade o cenário do nosso dia. O alto da serra ardia em chamas, em mais um dos criminosos incêndios comuns nessa época do ano. Para nossa alegria, fiquei sabendo que os bravos brigadistas voluntários conseguiram conter o avanço do fogo.

 

Bem, voltando ao lenheiro, o tempo me obrigava a iniciar o retorno. O final do dia ia se aproximando e eu tinha apenas alguns minutos de Sol para insistir uma última vez. Ao passar pelo ponto da primeira fotografia, eu tentei atrai-lo mais uma vez e ele respondeu. Esperanças renovadas, posicionei todos do grupo e escolhi um dos únicos poleiros ainda iluminados. Coloquei lá a “chama” e cruzei os dedos… Percebi então que o bicho se aproximo Alertei todos: Ele vai subir na pedra, não desperdicem, vai ser a última chance. Como mágica o pequeno passarinho surgiu atrás da vegetação e se exibiu em cima da pedra, no lugar certo e na luz certa. O som das câmeras disparando era como música, que aliviava toda a pressão de um dia inteiro. Quando o bichinho sumiu novamente, respirei bem fundo e soltei aquele irresistível PQP!!! Tá lá, lenheiro MUITO BEM fotografado. Missão cumprida. Segue a foto abaixo, que parece mais um troféu.

 

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Aliviados, sorrindo e com as pernas destruídas pelo sobe e desce, retornamos pela trilha e no caminho fomos presenteados com mais um belíssimo final de tarde, nesse lugar que não cansa de me surpreender. Esse é o cotidiano de um guia de observação de aves, que precisa estar preparado para os imprevistos que fazem dessa atividade tão apaixonante. Preciso aqui agradecer a confiança dos meus clientes em aceitar meus convites e loucuras para chegar até o lenheiro aos 49 minutos do segundo tempo, principalmente a Márcia, que se superou a cada metro subido pelo acidentado terreno da Lapinha da Serra. Obrigado, meus amigos, essa eu devo a vocês!

 

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Ainda dirigi por cerca de 1 hora até a pousada, onde chegamos mortos e alegres, loucos por chuveiro, cama e uma noite de descanso.

 

No terceiro dia ainda havia tempo para buscar o beija-flor-de-gravata-verde, principal objetivo que ainda faltava. Bem cedo estávamos lá, com o pouco que restou de força, prontos para outro desafio. A trilha não era nem perto tão complicada quanto a do dia anterior, mas ainda era exigente. Logo no início da trilha já conseguimos avistar e fotografar espécies importantes, como a cigarra-do-campo e a guaracava-modesta.

 

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Já alguns quilômetros caminhados, topamos com uma bonita saíra-amarela  se deliciando em uma fruteira e um bando de pássaros-preto e uns intrusos chupins-azeviche, muito bem identificados pelo Daniel, que nos chamou atenção para sua presença.

 

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Passei por vários pontos possíveis de avistar o beija-flor e nada. Até o escutei algumas vezes, mas nenhuma boa chance de foto. Alguns registros foram até feitos, mas nada impressionante. Já na volta, topei com um bonito campainha-azul que nos tomou algum tempo.

 

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Enquanto aguardava a turma clicar o belíssimo pássaro azul, percebi um beija-flor pousar bem em cima da minha cabeça e, quando olho para cima, era o safado do gravatinha-verde. No máximo silêncio possível tentei chamar atenção de todos e apontei para o poleiro, enquanto me movia discretamente para longe, para não assustar a pequena ave que buscava sombra. Coitado, era um jovem com a plumagem toda incompleta, para não falar uma zona só hahaha… Bem, não tem tu, vai tu mesmo. Já que o augustinho não apareceu, vai o adolescente arrepiado. Missão cumprida, terceiro e principal endêmico fotografado.

 

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No caminho de volta ainda conseguimos fotografar o pequeno lagarto endêmico, lagartinho-de-crista-do-espinhaço e uma fêmea do chifre-de-ouro.

 

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Antes do almoço deu tempo ainda de conseguir fazer fotos do bacurauzinho, recém chegado da migração e o bonito sabiá-do-banhado, que se aproximou bastante do grupo.

 

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Para encerrar, aquela visita ao Juquinha, para fazer a tradicional foto do grupo e agradecer por mais uma viagem concluída. Missão cumprida, com requintes de crueldade, principais objetivos fotografados. Encerramos com mais de 100 espécies registradas e muitos lifers para todos. Mais do que isso, muita história para contar e mais alguns amigos para carregar.

 

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Preciso novamente agradecer muito ao Daniel, José Laércio e Márcia pelo empenho e confiança. Sem isso os resultados teriam sido bem piores. Vocês foram demais!

 

Um grande abraço,

 

EDU FRANCO

 

  • Posted by Eduardo Franco
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