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Relatos ilustrados de nossos roteiros

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March07

BIRDING TRIP | Serra do Espinhaço

 

 

Cortando mais de 1000 quilômetros entre Minas Gerais e Bahia, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira do Brasil. Coberta por Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o Espinhaço é também um dos maiores centros de endemismos. Abrigando paisagens deslumbrantes e biodiversidade riquíssima, é certamente um dos melhores destinos para turismo de natureza do mundo. Nessa expedição visitaremos a porção Sul da cordilheira, principalmente as Serras da Moeda e do Cipó. A Serra da Moeda está localizada no Quadrilátero Ferrífero. Possuindo Unidades de Conservação, como o Monumento Natural da Serra da Calçada, configura-se como uma importante área para a conservação da flora e fauna. A Serra do Cipó é protegida por importantes reservas, como a APA Morro da Pedreira e o Parque Nacional da Serra do Cipó. A altitude de ambas porções serranas varia de 700 a 1600 metros e a vegetação acima de 1000 metros é caracterizada pelos campos rupestres e de altitude, possuindo ambientes típicos de Cerrado e Mata Atlântica em suas faces. Atualmente as Serras da Moeda e do Cipó são destinos procurados por turistas das mais variadas modalidades, geralmente atraídos por esportes de aventura e turismo de natureza

 

Nos dias 01 a 04 de março de 2018 recebemos a família Fujiyama (Maurício, Ilza e Vanessa) para um passeio pela Serra do Espinhaço em busca as espécies de aves características da região. Esse foi um daqueles roteiros desafiadores, onde muita coisa dá errado e faz com que o guia tenha que ter muito jogo de cintura para superar as adversidades.

 

DIA 01. A viagem estava difícil antes mesmo de começar. Poucos dias atrás eu havia feito uma viagem ao Rio de Janeiro e acabei voltando bem mal, o que acreditava ser um resfriado forte. Tentei me automedicar, mas no dia de iniciar a viagem meu corpo ainda estava bastante dolorido e a garganta muito inflamada. Sem muita opção, iniciei a viagem, pois não queria deixar meus clientes na mão. Os encontrei no hotel em Belo Horizonte e seguimos para a primeira passarinhada, no Monumento Natural da Serra da Calçada. A bicharada não estava ajudando muito. Essa é uma época complicada, pois a maioria das espécies estão em descanso reprodutivo. Entretanto, conseguimos ao menos registrar o principal objetivo daquela manhã, que era o rabo-mole-da-serra. Além dele, outras espécies foram avistadas como o periquito-rei e o papa-moscas-de-costas-cinzentas.

 

2018.03.01_001 2018.03.01_002Quando foi chegando a hora do almoço as dores no meu corpo estavam insuportáveis. Precisei me sentar várias vezes para tentar me recuperar e seguir na trilha. Com muita dificuldade consegui encerrar a manhã e seguimos para o almoço. Tentei de todas as formas me alimentar, mas a garganta inflamada dificultava bastante. Não consegui engolir quase nada. Muito gentilmente o Maurício sugeriu que abortássemos o planejamento da tarde para que eu pudesse ir para a pousada e descansar, mas eu não queria interromper o trabalho. A tarde seria mais simples, uma visita rápida ao Parque Roberto Burle Marx para vermos o cuitelão. Chegamos lá e o bichinho não decepcionou, valendo a insistência.

 

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Voltamos para o carro e, agora sim, seguimos viagem para a Serra do Cipó – Santana do Riacho/MG. A viagem levou cerca de duas horas e foi bastante pesada para mim. Durante todo o trajeto estava sentindo muita fraqueza e, quando finalmente chegamos, fiz uma parada em uma drogaria para tentar conseguir algum medicamento mais forte. Nesse momento um iluminado atendente da farmácia estava salvando a viagem sem nem ao menos saber. Eu fiz o pedido do medicamento e, como minha cara deveria estar desesperada, ele perguntou se era muito grave. Eu respondi que sim e então ele sugeriu que um farmacêutico me examinasse. Quando ele abriu minha garganta não conseguir nem enxergar direito a mucosa, de tão inflamada que estava. No final da história eu estava com 41 graus de febre e com a pressão baixa, provavelmente pela falta de alimentação. Vendo a urgência da situação, ele me receitou alguns antibióticos, anti -inflamatórios e umas outras caixas que eu nem sabia do que se tratava direito rs Cheguei à pousada, acomodei o grupo em seus quartos e os orientei em relação ao jantar e então fui tomar os medicamentos e tentar descansar. Por mais que seja louvável o desejo de não deixar o grupo sem guia, minha escolha não foi a melhor e eu deveria ter me tratado melhor antes de iniciar a viagem. Se eu passasse mal em uma das trilhas ou dirigindo, os resultados poderiam ser piores. Fica a lição…

 

DIA 02. Não consegui dormir bem, mas já acordei bem melhor do que antes. Os medicamentos fizeram excelente e rápido efeito, me deixando em condições bem melhores para seguir conduzindo o grupo sem maiores preocupações. No segundo dia, optei por trilhas menos exigentes, visando uma melhor recuperação, deixando as complicadas para depois. Essa sim foi uma sábia escolha. Sendo assim, fizemos passarinhadas nas proximidades da pousada e lá encontramos algumas espécies bem legais, como o bacurauzinho e o chifre-de-ouro, que estava bastante ativo, forrageando nas flores da arnica-da-serra. Também conseguimos fotografar a belíssima choca-do-nordeste e o curioso rapazinho-dos-velhos.

 

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Conseguimos também registrar algumas outras espécies, como a cigarra-do-campo e a guaracava-modesta. Encerramos a manhã e fizemos uma rápida parada para o almoço e, finalmente, desta vez consegui me alimentar melhor, o que ajudou bastante na recuperação. Sem muito descanso, a tarde seguimos para a região do alto-do-palácio, onde conseguimos registrar mais algumas espécies bem importantes, sendo algumas lifers para o grupo. Destaque para o tico-tico-do-campo e o caminheiro-de-barriga-acanelada.

 

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A luz estava muito bonita e aproveitamos para curtir um pouco do final da tarde na Estátua do Juquinha, onde encerramos nosso dia. A noite descemos para o centro turístico da Serra do Cipó, para tomarmos um chopp, beliscarmos uns petiscos e relaxarmos um pouco (estávamos merecendo).

 

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DIA 03. O terceiro dia estava reservado para a busca aos endêmicos e, como de costume, fizemos isso no Distrito de Lapinha da Serra. Mal sabia eu que aquele dia me mostraria que o resfriado era apenas o primeiro dos problemas da viagem… Acordamos cedo, tomamos o café-da-manhã no caminho e seguimos para a trilha principal. Havia chovido bastante a noite e em alguns dias anteriores e a estrada estava bastante complicada, com vários buracos e pequenos pontos de alagamento e barro. Em um deles, bem no final do deslocamento, fiz uma escolha ruim e acabei atolando o carro. Tentamos de todas as formas (todas mesmo) tirar ele sem ajuda de terceiros, mas não teve jeito…

 

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Sabia que por ali passaria um dos funcionários da RPPN e o aguardei para que pudesse pedir ajuda. Quando ele chegou, tentamos ainda algumas vezes remover o carro, mas acabamos desistindo. Ele então gentilmente retornou com sua moto e conseguiu pedir ajuda de um 4×4. Enquanto eu aguardava o socorro, pedi para que os clientes seguissem na trilha, para que não ficassem parados e pudessem ir ocupando o tempo fotografando. O socorro chegou, consegui remover o carro e encontrei o grupo logo a frente, ainda em tempo de buscarmos os objetivos da manhã. Fui então diretamente em busca do lenheiro-da-serra-do-cipó que apareceu rapidamente em um dos pontos. Infelizmente o bicho não estava bem humorado. Chegou a aparecer duas vezes, todos nós avistamos, mas não houve chance de boas fotografias. Tentei por muito tempo, mas o bicho realmente não estava disposto.

 

Por outro lado, o simpático “augustinho” beija-flor-de-gravata-verde não falha. Estava lá em seu território e conseguimos ficar um bom tempo fotografando. Enquanto os três registravam  pequenino, aproveitei uma pequena queda d’água e tomei uma banho para tirar toda a lama que ficou em cima de mim por conta do carro atolado.

 

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Continuei tentando atrair outro lenheiro-da-serra-do-cipó, mas ele vocalizava alto nos paredões da Lapinha. Para ir atrás deles nesses locais é preciso estar acostumado a andar naquele terremo íngreme, o que não é fácil para qualquer um. Além disso, o tempo estava começando a fechar e então decidimos retornar. Já era meio da tarde e o grupo optou por não almoçar e fazer apenas um lanche. Eu como estava sem comer direito a dias, acabei almoçando rapidamente.

 

A chuva começou a cair junto a muitos raios, o que me preocupou bastante. A viagem estava carregada de problemas e, além disso, sair sem dois dos endêmicos seria um desastre total, já que o plano era ir atrás do pedreiro-do-espinhaço naquele momento. Pedi então mais um pouco de paciência para o grupo antes de desistirmos, para ver se a chuva pelo menos reduzisse. Quando eu senti que haveria uma pequena brecha, convidei a todos para tentarmos. A família se levantou, porém bastante desconfiada e sem acreditar que seria produtivo (além do receio com a chuva e os raios).

 

Mantive minha esperança e tentei motivar a todos. Chegando no inicio da trilha, tudo completamente alagado. A represa da Lapinha estava transbordando e, quando olhei para trás, vi três rostos muito decepcionados… eu não sabia onde enfiar a cara, mas fingi que estava tudo certo e meti o pé dentro da lagoa, para atravessar até o outro lado. Quis nem saber rs… Levantei minha caixa de som e comecei a reproduzir o playback com a voz do bicho… tento uma, duas vezes…. eis que na terceira vez vejo aquele furnarídeo endêmico voando, vocalizando e  fazendo display. Ai a reação não poderia ser diferente: punhos cerrados, braços erguidos e aquela palavrão sonoro saindo da minha boca, como quem comemora gol em final de campeonato. Ah! Que alívio. Não bastasse um, vieram dois, que ficaram na cara do grupo por alguns eternos minutos…. ficamos ali então clicando mais alguns outros bichinhos, até que a chuva desceu com força de vez….

 

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Resfriado, carro atolado, banho de lama, espécies ausentes… problemas, problemas e problemas… Se eu quero outra vida pra mim? NÃO! Definitivamente, não! Esse sufoco diário que nós profissionais de natureza passamos é o que nos faz cada dia mais apaixonados pelo imprevisível, pelo desafio. Não é para qualquer um. Não tentem entender… Encerramos mais um dia complicado, mas com a maior parte dos objetivos alcançados. Restava descansar novamente para enfrentarmos a última manhã.

 

DIA 04. Tinha mais… rs no último dia visitamos o Parque Nacional da Serra do Cipó. Iniciamos a trilha e antes de chegarmos na metade dou de cara com os caminhos completamente alagados novamente… não tem condição como que em todos os dias tivemos algum problema que nos obrigasse a alterar nossos planos. Incrível! Aquilo já estava me dando nos nervos. Problemas acontecem, mas daquele jeito estava demais. Antes de desistirmos de seguir, ainda conseguimos avistar um gavião-caramujeiro, espécie bem incomum por ali.

 

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Sem ter muita opção, tentei ainda encontrar o lenheiro em outros pontos, mas o bicho não dava nem um pio se quer. O calor estava demais quando eu então decidi buscar outro desejo dos clientes, o campainha-azul, que resolveu colaborar. Encontrei o bicho forrageando no chão do campo cerrado e ficamos aguardando até que ele finalmente resolveu se empoleirar.  curioso é que ele ficou carregando um inseto por todo o tempo. Parecia estar tendo dificuldades em engolir a presa.

 

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Encerramos nossa viagem com a maior parte dos objetivos cumpridos em uma viagem muito confusa. Agradecemos nossos parceiros e amigos pelo apoio de sempre e ao nossos clientes pela confiança em nosso trabalho. Preciso também agradecer a paciência que a família Fujiyama teve durante toda a viagem, mesmo passando por várias situações desconfortáveis.

 

Grande abraço

 

EDU FRANCO

 

  • Posted by Eduardo Franco
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